Dom de iludir [Marcelo Vitorino]

Dom de iludir 

Adolfo não era um “qualquer nota”, todos sabiam. Acostumado a ter tudo o que queria, na hora e do jeito que desejava, era figura conhecida na mídia local por causa de seu talento com os negócios e também com as mulheres.  Sim, muitas delas.

Frequentemente visto acompanhado das mais belas do Rio de Janeiro, impressiona a qualquer homem o fascínio que exercia sobre as mulheres. Os invejosos falavam que era por causa do poder, mas no fundo sabiam que se tratava mais do que isso. Adolfo, mesmo perto dos cinquenta,  causava frisson pelo seu jeito protetor. Quanto mais forte a presença feminina, maior o encanto pelo “bon vivant”.


Depois do quinto casamento, decidiu que ficaria sozinho. Dissera que com os filhos criados e bem encaminhados sua função familiar tinha chegado ao fim, não devia mais nada à sociedade. Virou um verdadeiro boêmio.

Resolveu que deveria dar expediente no escritório somente as tardes. As manhãs eram para descansar e se manter em forma, enquanto as noites serviriam de palco para suas aventuras.

Tudo ia muito bem até que um daqueles encontros que só o destino pode armar aconteceu. Enquanto passava pelo bairro de Copacabana, rumo ao centro da cidade, Adolfo falava ao celular, não percebeu que o semáforo havia fechado e acabou batendo na traseira do carro de outra pessoa.

Ao descer para ver o tamanho do estrago encontrou uma moça desacordada, com a cabeça sobre o volante. A batida nem foi tão forte assim, mas o carro da moça era tão velho que o cinto de segurança não deve ter funcionado direito. Seu desmaio não demorou muito a passar e antes de qualquer socorro médico chegar ela começou a recobrar a consciência.

— Moça, você está bem? Sente dor em algum lugar?

— Acho que estou… — fez uma pequena pausa e perguntou — O que aconteceu?

— Eu bati no seu carro, mas não se preocupe, fique calma, pagarei todas as despesas. Qual o seu nome? Quer que eu avise a alguém?

— Luciana. — e novamente desmaiou.

Quando acordou já estava sendo medicada no Copa D´or, um dos hospitais mais luxuosos da capital.

— Que bom que acordou. Aguarde só um instante que vou chamar seu acompanhante. — disse a enfermeira.

— Acompanhante?

— Xi, pelo visto você não se lembra de nada, não é? Deve por causa do choque, logo você vê que tudo se encaixa. Vou deixar que ele te explique tudo.  Já volto.

As imagens do que tinha acontecido ainda estavam distorcidas quando a enfermeira voltou.

—Olha,  moça…Infelizmente seu acompanhante teve que ir embora, mas deixou um bilhete.

A enfermeira leu o recado que continha um pedido de desculpas, um aviso de que as despesas estavam pagas e um telefone caso Luciana precisasse de algo. A paciente quis ligar imediatamente, mas foi convencida a descansar primeiro.

Na manhã seguinte, enquanto ela ainda aguardava o médico para lhe dar a alta, chegaram flores e, junto delas, um cartão escrito com uma letra muito bonita: “Espero que você fique boa logo. Por favor, aceite meu convite para jantar, na noite em que tiver disponibilidade, como um pedido de desculpas por todo o transtorno que lhe causei. Adolfo”.

Assim que chegou em casa a curiosidade em saber mais sobre seu “acompanhante” fez com que Luciana ligasse imediatamente. Combinaram um jantar naquela mesma noite. Pontualmente, Adolfo chegou para buscá-la, estacionando o carro na porta do prédio. Assim que ela desceu, enquanto abria a porta do passageiro disse:

— Imagino que você não se lembra de mim. Eu sou o Adolfo, muito prazer!

— Prazer. — respondeu Luciana, visivelmente encabulada mostrava que não estava acostumada com tanta gentileza.

Adolfo estava certo. Luciana realmente não se lembrava de nada, mas acabou o reconhecendo por causa da sua presença na mídia. Em meio a novos pedidos de desculpas, durante o caminho para o restaurante teve que explicar tudo o que ocorrera.

No jantar o papo se aprofundou mais e finalmente todas as peças do quebra-cabeça se encaixaram. Sobrou tempo para que se conhecessem melhor.
De origem humilde, Luciana nasceu e cresceu no subúrbio carioca, todo dia levantava cedo e atravessava a cidade para chegar ao trabalho. Era recepcionista de uma clínica odontológica. Casou-se muito jovem e ficou viúva no primeiro ano de casamento, o marido foi vítima de um assalto, morreu em seus braços.

Nada disso assustou Adolfo, nem mesmo a diferença de idade entre os dois; Luciana era cerca de vinte anos mais jovem, foi um empecilho para que tivessem uma noite muito agradável.

Três meses depois estavam namorando. No início ela bem que tentou resistir aos apelos de Adolfo, mas foi vencida pelos mimos e gentilezas frequentes. No sexto mês, com a justificativa de que não era mais um garoto e contrariando o discurso de que não se casaria mais, pediu Luciana em casamento. Novamente, com certa resistência, o aclamado “sim” deu as caras.
Todos que viam o casal ficavam em dúvida com o futuro que teriam. Luciana era muito amável, mas não exalava paixão pelo noivo, enquanto ele parecia ter ganhado o melhor presente de natal que uma criança poderia ganhar.
Adolfo não economizava para demonstrar o seu afeto; flores, roupas e joias eram presentes frequentes. Na semana do casamento resolveu que deveria dar um carro para a noiva.

— Acho que já está na hora de você ter um carro decente. Uma princesa como você não pode andar naquele calhambeque que você tem.

Mesmo recebendo muitos presentes, Luciana foi pega totalmente surpresa e não sabia bem o que dizer. Claro que ficou feliz, mas também acabou assustada com o empenho que aquele homem demonstrava para conquistar seu coração.

— Lu, eu esperava uma reação um pouco melhor da sua parte.

— Não sei o que dizer! Ele é lindo! Muito obrigada!

Ainda assim não era o agradecimento que Adolfo queria, tinha uma coisa que o incomodava profundamente. Desde que começaram a sair, Luciana nunca disse que o amava. Chegou a conversar sobre o problema, Luciana deixava claro que não queria ser pressionada. Ele, com a sabedoria que os anos lhe garantiram, sabia que era questão de tempo.

Na véspera do casamento resolveu que aquela situação não poderia mais perdurar e foi taxativo:

— Luciana, vamos nos casar amanhã e preciso saber uma coisa. Preparei o casamento que você não teve, fiz todos os seus gostos, te dei tudo o que eu poderia dar. Entendi a sua distância no início, sei que nossa diferença de idade te preocupa. Contudo, não posso mais esperar para saber.
A noiva já sabia do que se tratava, enquanto Adolfo falava pensava no que iria dizer.

— Chega de esperar! Preciso saber agora, você me ama? — questionou, olhando-a nos olhos.

Os segundos seguintes pareceram horas. E finalmente veio a resposta.

— Eu amo você.

Como diria Dadá Maravilha, o folclórico jogador de futebol dos anos setenta, o amor é lindo.


Dom de iludir

Música de Caetano Veloso na voz de Gal Costa

Não me venha falar
Na malícia de toda mulher
Cada um sabe a dor
E a delícia
De ser o que é…

Não me olhe
Como se a polícia
Andasse atrás de mim
Cale a boca
E não cale na boca
Notícia ruim…

Você sabe explicar
Você sabe
Entender tudo bem
Você está
Você é
Você faz
Você quer
Você tem…

Você diz a verdade
A verdade é o seu dom
De iludir
Como pode querer
Que a mulher
Vá viver sem mentir… 

Fonte:
http://naquelamesa.com/dom-de-iludir/#sthash.9rZTA5uN.dpuf


Marcelo Vitorino- Trabalho com publicidade desde 1999 e, depois de um tempo, acabei indo naturalmente para o marketing e desde 2007 passei a integrar o pessoal do marketing digital.
 Como produtor de conteúdo na internet estreei escrevendo o Pergunte ao Urso, um projeto que visava entender como funcionava o consumo de conteúdo pelo público feminino. A ideia deu certo, o blog virou dois livros, teve presença em rádio, mídia impressa e até na televisão. Chegou a ter um milhão de acessos mensais.
No final de 2012 decidi que era a hora de virar a página e encerrar o projeto. Publiquei todo o meu aprendizado em um documento que está disponível na internet, portanto, se você quer começar um blog, sugiro que leia.
Acabei me viciando em escrever e interagir com o público. Já que não fui forte o bastante para largar o vício, entendi que o melhor caminho era começar outro projeto.
Sou fruto de uma família muito numerosa e como acabei chegando por último tive uma formação muito diferenciada. Aos 14 anos escutava muita Bossa Nova e MPB, depois passei a escutar Samba, Blues, Jazz e Soul. Fui escutar Rock e outros gêneros musicais bem mais velho.
O fato é que sempre gostei de música. Para mim, todo grande momento da vida tem uma trilha sonora.
Como referências literárias tenho dois modelos: Nelson Rodrigues e Luís Fernando Veríssimo. O primeiro pela ambientação perfeita que há nos seus textos, o segundo pelo diálogo e reflexões de seus personagens. 

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