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Boteco. Justamente por ser um reduto absolutamente
masculino, as mulheres sempre estão presentes, mesmo que seja apenas como
assunto das conversas. O futebol e a política têm a sua vez, claro, mas as
mulheres são, sem dúvida, o tema predileto das rodinhas de boteco. E no boteco
do Tonho não era diferente. Assim sendo, como exímios conhecedores e dedicados
apreciadores, travavam acaloradas discussões que atravessavam noites inteiras,
ocasião em que defendiam gostos, enalteciam preferências e trocavam impressões
pretensamente abalizadas sobre o tema.
– As morenas de 1982 têm uma combinação equilibrada.
Agrestes e delicadas ao mesmo tempo. – afirma o Jonja, com a autoridade
reforçada pelos seus cabelos brancos.
– Discordo! – protesta o Afonso – Acho que ainda não estão
prontas...
Carecem de personalidade. Talvez daqui a uns dois anos...
– Se for para falar de morenas, prefiro as de 1978. Um bom
ano! – pondera o Tigrão. Este com os cabelos levemente grisalhos.
– Um bom ano inclusive para as ruivas! Tens visto alguma
ruiva de 78?
– Ruivas são mais difíceis de encontrar. Principalmente de
78.
– Esplendorosas. Gran reserva! Têm presença! 77 foi a
revelação, 78 a
confirmação!
– É verdade, um ano excepcional! – suspirando.
– Sem dúvida! – todos concordam, balançando as cabeças.
– E as loiras de 71, então? Uma safra surpreendente, sem
exageros...
– Chegaram ao estado adulto. Amadureceram... Tornaram-se
vigorosas. Estão no seu melhor ponto, ganharam em elegância e consistência o
que perderam em frescor.
– Prefiro algo mais encorpado, robusto! – defende.
– Tipo?
– As mulatas de 1981.
– Todos suspiraram...
– Imbatíveis! – prosseguiu – Adoro o bouquet das mulatas
de 81! – inspirando fundo – Quer ver as cariocas!
– Uhmmm! Cariocas, baianas, gaúchas... O terroir
influencia muito!
– As cariocas de 81 têm personalidade marcante. Sensuais,
lascivas, voluptuosas...
– No dia seguinte ainda se nota sua presença!
– É o retrogosto!
– Isso... Nesse caso faz a gente querer mais!
– E as paulistas?
– Pois é, ninguém valorizava muito, diziam serem
insípidas, até que um “crítico” elogiou a “deselegância discreta daquelas
meninas”...
– Concordo! O primeiro impacto deixa reservas, mas depois
se liberta o temperamento mais sofisticado que as caracteriza!
– De fato... Melhoram com o tempo!
– E 1987? Ouvi falar bem de 87, pujantes,
frutadíssimas,... jovens! Já estou de olho!
– 87 não, cara! Deixa 87 de fora!
– Mas esse ano promete!
– Não, não... 87 não! – insiste.
– Mas não vejo a hora...
– Pô, cara – constrangido – minha filha é de 87!
Jean Marcel-
Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois
adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas,
romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com
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