Vida de flor
É hábito meu apreciar jardins. Eu poderia olhar e me
encantar também com o céu, todos os dias, mas o céu às vezes fica tão bravo que
se derrete em lágrimas. As flores têm sempre melhor humor.
Faço caminhadas diárias, comandadas pelo medo de sentir
cessar as batidas do único amigo verdadeiro de uma existência inteira. Não me
importo de ser velha ou jovem. Não me impressionam as rugas, a perda de visão
gradativa, a imperfeição dos dentes. Para tudo isso, se eu quiser, há remendos
humanos.
O que me importa é muito mais que um amontoado de pendengas físicas.
Eu quero vida. E foi dessa senhora que de nós se separa apenas uma vez que meu
coração recebeu avisos para se cuidar.
Mas não me basta caminhar e assumir a rotina do passo a
passo em frente a casas inertes, prédios-esfinges. Isso me irrita, me fatiga a
paciência que já se faz tão curta. Para desfazer esse cansaço que as coisas
imóveis costumam provocar, eu me distraio, em qualquer caminho, perscrutando
jardins. Sou capturada pelo frescor de uma alameda, pela cor de um ramo
florido, por uma folhagem que brinca com as nuanças do verde.
Prefiro, com toda a certeza, um jardim que fica na rua
de cima, a despeito mesmo do pequeno aclive que preciso encarar no caminho. É
um jardim irregular, desses que talvez escape a olhares mais estéticos, mas é
tão, tão... coerente que não permite reparo. Ostenta uma poda necessária, mas
não excessiva, uma ordem desorganizada no plantio das flores, um inteligente desprezo
pelo convencional.
Parada em frente ao muro baixo que me separa do
universo de seivas, medito sobre a beleza das coisas que não têm padrão. É um
jardim com caráter. Tem sofrimento plantado aqui. E esse muro simbólico que o
circunda é somente uma sentinela a proteger algum recato. Abaixo a mão furtiva
sobre uma cinerária lilás e arranco-a da folhagem cinza com a sofreguidão dos
invasores. Pego a menorzinha de tantas, para que meu pecado seja de pouco
remorso. Tomo cuidado em não pisar a grama e respeito o rubor de um hibisco que
parece se envergonhar da minha atitude.
Dias após dia, incentivada pelo sucesso do primeiro
delito, furto de novo. E o instante da posse é sempre afogueado e pleno... Mas
o que é isso? Tenho a sensação de um olhar que acompanha o meu ato. Talvez seja
mais sensato cumprir a vontade imediata dos tornozelos, mas correr é prova do
delito. Melhor ter certeza, primeiro, de que há mesmo alguém me olhando. A
janela da frente é a minha primeira opção. Levanto os olhos medrosos até a vidraça
entreaberta, preparando um sorriso convencional e uma fala improvisada. Ninguém
está lá. Olho para a porta, percebendo a solidez das trancas, e desejo ser
menos cismada. Deixo escapar um suspiro e isso me irrita. Os suspiros sempre
acompanham os malfeitos. Olho para o céu, disfarçando a busca, e é exatamente
neste giro dos olhos que dou de cara com o homem que me encara da varanda do
andar de cima.
— Bom-dia —
arrisco.
Um aceno de cabeça é tudo o que recebo do taciturno.
—
Desculpe ter arrancado uma flor. É que o seu jardim é tão lindo!
Arrancar? Como então começo a minha confissão de culpa
comprovando a brutalização daquele montinho lilás que escondo atrás do corpo.
Ganho de volta um frio “Está certo”, distorcido pela grata distância entre nós.
O homem se volta e entra, me deixando com a lembrança incerta de um sujeito
alto, magro, de meia-idade, assim como eu. Chego a imaginá-lo pálido, mas não
sei se há espaço suficiente para garantir essa percepção. Ele se foi rápido, e
eu me vou mais rápido ainda!
Enquanto caminho, suada pelos passos apressados da
fuga, encaro o fato de que o meu humor está em frangalhos. Eu me tornei uma
assassina de flores. Arrancando as pequeninas da sua mansão de sol, chuva,
vento, liberdade.
Destruindo suas forças, roubando-as da companhia amiga de
outras flores. Aquele homem frio e taciturno é, agora, por minha causa, um
criador sem criatura. A vida que tanto almejo reter é a mesma que arranco de
uma simples flor de jardim.
Não estou acostumada a me ter como egoísta, muito menos
a pensar em mim como alguém propenso ao fim das coisas. Sou pelos começos,
pelas permanências, pela duração. E é por isso que decido não cessar os meus
passeios matinais. Não posso permitir que nada além de uma noite de sono me
separe das caminhadas que me fazem tão bem. Nem a descoberta do desequilíbrio,
que faz de mim uma mulher de contrastes.
Hoje, caminho por outras ruas, outros quarteirões,
mas... Não adianta! Meus pés se
contorcem teimosos em direção ao aclive. Melhor não resistir à ansiedade que me
descompassa o coração. Pode ser fatal. É preciso promover um encontro urgente
com os acontecimentos. Estou aqui, de novo, nesta rua tão prazerosa. Tomo
fôlego porque a tarefa é árdua: preciso pedir perdão às pequeninas.
Sobre o murinho, me enfeitiçando, um gladíolo
alaranjado, ainda fresco. Parece deitado à espera de alguém. De mim...?
Impossível! Que pretensão sem sentido! Mas está aqui, solto, lânguido, sem
dono. Então, é meu. E o perdão vai
esperar por outra hora.
Já faz dias que é assim. Talvez semanas, porque mesmo
agora que o inverno chegou, e as flores se recolheram para dormir um pouco
mais, encontro no muro, a cada dia, uma rosa, uma cinerária, uma margarida. As
noites se resumem à antecipação da minha flor da manhã. Vez ou outra, levanto
os olhos e recebo o mesmo contido aceno do homem alto, magro e de meia-idade.
Existe aconchego no gesto diário desse amigo que não conheço.
Não me sinto mais ceifando a vida das flores. Recebi,
num sussurro de folhas, o segredo das pequeninas, a me dizer que foram mesmo
feitas para serem arrancadas. São como as pessoas: germinadas com um destino.
Têm começo, meio, fim. Inquietam-se, gemem, choram, rejubilam-se. E aí,
brilham. Como as pessoas. Depois se vão para um não sei onde, cumprido o seu
papel na perfeição de Deus.
É com as flores que a minha crença miúda se converte.
Não há mais o Deus que tripudia de mim, despejando nos meus anos dor, velhice,
morte. O Deus das flores me diz para arrancar o que eu preciso. E diz a elas que
se doem a mim. Não há culpas.
Olho as pequeninas estendidas preguiçosamente ao sol e
me lembro das pessoas que esbarraram em mim durante a minha vida, ora me
entregando cor, beleza, frescor, ora me pedindo ajuda, conselho ou simples
companhia. Penso em quantas vezes arranquei essas flores e em quantas vezes me
neguei a ser arrancada. A gente entrega o que tem, recolhe o que precisa. Até
que de tanto retirar e repor chega, enfim, a hora em que cessam as barganhas.
Amanhã, eu venho de novo. Quero dizer olá ao meu amigo
que não conheço e agradecer a ele cada flor que o muro me entregou. Pode ser
que eu aprenda com ele a remexer a terra, a plantar, a saber o momento de
colher para entregar. Quero essa vida de flor que ainda tenho tempo para
começar. Quero ser eu também semeada, e cuidada, e afagada. Quero ser um
jardim. E quero ser arrancada todos os
dias.
Cinthia Kriemler
- Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de
Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e
Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na
oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de
contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo
de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas
“Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma
de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da
Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há
mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
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