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| Portrait Of Adele
Bloch Bauer I - Gustav Klimt |
Beijar
as mãos
Gosto de beijar as mãos de uma pessoa – é uma profissão
de fé para demonstrar minha amizade e gratidão; faço-o como um gesto cheio de
melindres maiores, que vêm do interior e sabe se instalar na pessoa que posa
sem expectativas.
Beijar as mãos de uma pessoa é colocar-se no côncavo
das mesmas mãos, bem fundo, na finitude, e sentir-se protegido; é sobretudo
atitude, troca de calor; é se sentir acariciado, fazer jus ao instinto, sem
pedir nada em troca.
São as sensações amistosas que roubamos e nos prendemos
- dizem que não estamos sozinhos, quando pensamos que realmente estamos.
Existem pessoas à volta, à espera, tão promíscuas em suas carências que
beijariam as primeiras mãos que aparecessem, sem cheiro, cor, sabor, sem
requintes...apenas para sentir o toque e não mais se entregar ao abandono, mas
ceder à companhia, ao espaço entre uma palavra e outra, ou ao silêncio que
antecede os atos improvisados.
Damos as mãos todos os dias, insensatos, desprevenidos,
sem intenções, como um desabrigo prestes a escapar por entre os dedos
(demonstramos uma aptidão interessada, algum agradecimentos ou estupefação
desmedida que se confundem com o real significado da aparência), não para nos
deixar absortos, ao contrário, expelir a fina demência racional que se esconde
dentro da generosidade fantasmagórica – ela toma formas e age como um monstro
escondido.
É um gesto simples para gostos simples, almas e
corações refinados; canções vibrantes que ecoam na voz, nos passos, no
movimento recíproco; aproximação, interação, troca de fluidos, por assim dizer;
tilinta, sorve, espasma; é o que se bebe e sente expandir dentro de si.
Sentir outra pessoa, às vezes assusta - pela vibração e
conexão das energias, pela mutualidade. E nem sempre se pode ver essa simbiose,
é quase uma des-conexão ou uma força bruta que, por repulsa, não permite o
toque, nem que o desejo de alguém se perpetue a ponto de sufocar-se; beijar as
mãos, até do mais desgrenhado ser que posa em sua frente, é um gesto
inexplicável e despudorado de humanidade.
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