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JESUS NÁUFRAGO: O HOMEM PERDIDO NO OCEANO DE CRISTO

Imagem Cristo Pantocrator do Monastério Ortodoxo de Santa Catarina do Monte Sinal, Egito.
Jesus náufrago: o homem perdido no oceano de Cristo
Por 
Alejandro Massa Varela
Tradução Livre: Revista Biografia

Notas sobre Jesus como figura histórica e uma entrevista, em vídeo, com Antonio Piñero, o maior especialista laico, de Língua Espanhola, da primeira era do Cristianismo durante o século I , D.C.

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Este artigo consiste em uma perspectiva sintética sobre Jesus, o homem, filho de uma mulher pobre, o rabino do amor e da espada, o estranho fariseu, o criminoso punido por ser louco e puro. Esse homem perdido no Cristo nasce repetidamente, sempre nas belas ideias que o cosmos tem sobre a sua fragilidade, uma ferida onde a consciência abisma. Jesus era um ser humano único que representou e representa uma simbologia? Ou é um grande golpe, uma história inacreditável? Este artigo é uma introdução complementar a uma entrevista em vídeo com aquele que é, provavelmente, o maior especialista laico e de língua espanhola, sobre cristianismo do século I: Antonio Piñero.

Piñero, autor e acadêmico espanhol, formou-se em Filosofia Pura pela Universidade Complutense de Madrid em 1968 e em Filologia Clássica pela Universidade de Salamanca em 1970. Em 1976 formou-se em Filologia Bíblica pela Pontifícia Universidade de Salamanca e doutorou-se em Filologia Clássica na Universidade Complutense de Madrid. Ocupou vários cargos docentes, sendo professor de Filologia do Novo Testamento na Universidade Complutense de Madrid desde 1983. Piñero partilhou comigo o seu ponto de vista sobre o trabalho de um historiador crítico sobre esta figura, sem dúvida, o homem mais famoso no planeta. Recomendo aos leitores que reservem um tempo para conhecer sua extensa obra sobre o tema, especialmente sua mais recente obra de tradução e interpretação, Os Livros do Novo Testamento , publicada pela Editorial Trotta ( disponível no link ).

Começo com meu artigo. Vejamos, Jesus o mito ou Jesus o homem? Como cristão cultural não crente, a minha perspectiva pessoal coincide essencialmente com o consenso da maioria dos estudiosos contemporâneos, sejam eles ateus, agnósticos, membros de uma Igreja ou praticantes de religiões não-cristãs, bem como com o complexo desenvolvimento de análises históricas críticas desde século XIX até hoje: na verdade, houve uma pessoa, Jesus da Galiléia, sobre quem sabemos muitas coisas, mais do que sobre personagens como Sócrates, principalmente através de fontes confessionais, além de algumas fontes não-cristãs do século em que Jesus viveu.

Muito do que sabemos deve ser considerado plausivelmente histórico, por exemplo, que ele era um judeu praticante do norte da Palestina, um semita cuja língua nativa era uma variante do aramaico. Ele, provavelmente, também conhecia o hebraico, como meio de comunicação litúrgica e o grego koiné, como língua veicular do Império Romano do Oriente. A sua religiosidade, distante da centralidade sacerdotal e política de Jerusalém, tinha traços de piedade popular e teria sido espiritualizada por estar enraizada num poderoso messianismo esclarecido, comum a outras seitas judaicas do século I, como os Essénios do Mar Morto, embora não haja evidências de que fez parte de qualquer um desses grupos específicos. Ele teria desenvolvido uma teologia apocalíptica a partir de parábolas e gestos, como uma interpretação mais misericordiosa da Lei, útil para cumprir, integrar e unir o povo simples de Israel e os pecadores impuros marginalizados. Depois de um ministério e de um trabalho visto como taumatúrgico nas periferias, após levar sua pregação para a capital, teria sido executado por Roma sob acusação de “lesa majestade” e vilipendiado por algumas autoridades de sua religião como blasfemador. Ele formou uma comunidade de discípulos que sobreviveram à sua morte, que escreveram, pregaram e lançaram os fundamentos do que hoje conhecemos como fé cristã nas suas diversas expressões.

Tudo o que é narrado no Novo Testamento deve ser interpretado com cautela, não apenas a partir de uma leitura que abdique os ensinamentos da Igreja, mas de uma leitura que, também, assuma a verdade bíblica essencial da fé:
  • 1. Por quão complicado é o contraste das fontes evangélicas. É comum que cada um dos três evangelhos sinópticos, Marcos, Mateus e Lucas, contenham frases e episódios exclusivos, e se contradigam em detalhes específicos em seu conteúdo comum. O evangelho de João é profundamente diferente em termos de proposta teológica e critérios narrativos. Os evangelhos apócrifos, exceto, talvez alguns elementos de Tomé e Pedro, são excessivamente tardios.
  • 2. Porque muito do que sabemos sobre o caráter de Jesus é infalsificável, ou seja, há atos de sua vida que são milagrosos ou fora de uma explicação naturalista, andar sobre as águas ou ressuscitar os mortos, por exemplo, delimitam e são delimitados pela fé, portanto não podem ser comprovados a partir de quaisquer dados concretos ou fazer parte de uma interpretação de fontes a partir dos critérios da disciplina de História. Muitos são ecos da mentalidade mítica da Antiguidade.
  • 3. Porque embora os evangelistas pretendessem realçar a experiência de uma pessoa real, também partiram da totalização dessa pessoa como sujeito salvífico e mediador de consciências desafiadas por noções teológicas. Os evangelhos são textos catequéticos e propagandísticos. São ferramentas a serviço de uma missão de massa.
  • 4. Porque embora existam fontes não-cristãs que dão conta da existência de Jesus, por exemplo, referências mínimas, embora claras, de Flávio Josefo e Tácito, estas são escassas e muito breves sobre a sua vida, omitindo suas ideias e sem muita relação com os evangelhos.
No entanto, penso que é impossível ou, em qualquer caso, muito improvável que Jesus fosse, por si, uma figura literária ou mítica, tal qual como entendemos os diferentes deuses e heróis épicos. É verdade que este ponto de vista ganhou alguma credibilidade a partir do Iluminismo do século XVIII. Mas desde meados do passado, as pesquisas mais recentes sobre o cristianismo primitivo, juntamente com uma melhor e mais complexa análise filológica do Novo Testamento, têm rejeitado esta perspectiva, mesmo em universidades que promoviam o ateísmo, como na extinta União Soviética. Essa perspectiva quase deixou de ser aceita na academia, mas persiste na mídia não especializada, sendo, na melhor das hipóteses, mais uma crítica filosófica especulativa e, na pior, uma série de boatos. Na minha opinião, os trabalhos sobre o tema de autores como Richard Carrier, Robert Price, Michel Onfray, Bert Thompson e Thomas Brodie têm pouco rigor.

Questionar radicalmente testemunhos sobre a vida de uma figura considerada histórica, mesmo que indissociáveis ​​do imaginário, deixaria a história antiga quase vazia de personagens. É simplesmente obstinação insistir apenas nesta metodologia. Um Jesus criado a partir de uma página em branco na mesa de algum gênio como Paulo, como se fosse Sherlock Holmes, Tarzan ou o ET extraterrestre, teria obedecido a outro grau de liberdade. É também falatório e nada mais, atribuir a criação do Cristianismo a autoridades do século IV, como o Imperador Constantino, ignorando completamente três séculos de vida religiosa no Mediterrâneo. Os autores do Novo Testamento lutaram para se fazerem entender através de assunto externo que procuravam internalizar.

A teologia contínua e assistemática do homem Jesus certamente lhes deu constantes “dores de cabeça”, como sugere Piñero, pois parece evidente que o corpus bíblico sobre o Cristo nada mais é do que a maneira como esses autores lidam com essa teologia. O objetivo era harmonizá-lo com as noções que tinham sobre Deus, refletindo claramente as margens do seu contexto histórico, a ponto de ser verificável. Os elementos comuns entre Jesus Cristo e as figuras da mitologia não o reduzem a ser apenas uma recriação delas. Eles compartilham um núcleo duro que se perde no mais remoto, mas não um exercício de copiar e colar, então pode-se supor que a lenda do Galileu é a aura que despertou uma figura histórica, que não só Paulo e seus pares tentaram dar a conhecer, mas apropriar-se dele à sua maneira. Também alterar, melhorar, resumir, complicar, usar, fábular e até censurar. Isto só seria possível se houvesse um ser humano insubstituível envolvido como causa da contradição.


Abaixo o link da entrevista com Antonio Piñero (áudio em espanhol):







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Alejandro Massa Varela (1989) é poeta, ensaísta e dramaturgo, além de historiador de formação. Entre suas obras estão o livro El Ser Creado o Ejercicios sobre mística y hedonismo (Plaza y Valdés), com prólogo do filósofo Mauricio Beuchot; a coleção de poemas El Aroma del dardo o Poemas para un shunga de la fantasía (Ediciones Camelot) e as peças teatrais Bastedad o ¿Quién llegó a devorar a Jacob? (2015) y El cuerpo del Sol o Diálogo para enamorar al Infierno (2018). Sua poesia foi reconhecida com diversos prêmios no México, Espanha, Uruguai e Finlândia. Atualmente atua como diretor da Associação de Estudos de Revolução e Serenidade. Canal do autor no YouTube: Revolution and Serenity Studies Association

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