DIANTE DA MÚSICA, O PRECONCEITO ENGOLE A POESIA [Raul J.M. Arruda Filho]

DIANTE DA MÚSICA, O PRECONCEITO ENGOLE A POESIA

Basta morrer alguém: Cazuza, Renato Russo, Chorão. Não importa quem. A discussão vai e volta. E quando volta, sempre está envolta em preconceitos. Conceitos incapazes de entender o que precisa ser entendido. Ignorância sobre o básico: há espaços para todos. Do fox até a ópera italiana, da epopeia grega até o haiku. A poesia e a música são as vozes legítimas das ruas e das bibliotecas, da alta literatura e da cultura popular. Simples assim. Sem se importar com a transcendência divina sobre a Terra, pois diversos são os caminhos para o prazer. Para o timbre e o ritmo, para o som da palavra e para a palavra que imita o som.

A irracionalidade impede o básico. Nesses momentos conturbados, onde sentimentos mal administrados se impõem sobre a coerência, não adianta gastar latim tentando explicar o que é e o que não é. Porque, nesse tipo de jogo, o importante nunca receberá boas cartas. O lance (de dados?) é outro. Outro logro. Caetano Veloso e Chico Buarque, na companhia de compositores musicais menos votados, estão cansados de receber vaias e exclusão. Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada – profetizou o baiano, talvez lembrando Walt Whitman, Que pode haver de maior ou menor do que um toque?, talvez imaginando que não existem paredes entre o iskeite, a prancha de surfe, o roquenrou e a poesia. 

F(r)estas, interstícios da paixão, intervalos da emoção, dentro da cornucópia artística há lugar para colocar em xeque as certezas mais incertas. Eu hoje me embriagando / de uísque com guaraná / ouvi tua voz murmurando: / são dois pra lá, dois pra cá. Como se fosse uma praga bíblica surge do nada vários sujeitos sem samba no pé querendo castrar quaisquer tipos de desordem. Proclamando que música e poesia são artes diferentes, não se misturam. Não devem gozar (em vários sentidos e posições) da miscigenação física e sonora. Exceto em alguns poucos e raros momentos, daqueles que, se existem, ninguém viu, provavelmente nunca verá, embora não se possam excluir as possibilidades matemáticas, a estatística sempre aceita margens para o erro.

O equivoco é a prova dos nove, apesar do Vinícius de Moraes, Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei. Apesar dos exercícios de linguagem não carregarem a iniquidade e a insensatez, afinal Meus heróis / morreram de overdose / meus inimigos / estão no poder. 

Baionetas caladas e vozes veladas implantam horror contra quem estiver disposto a defender a ideia que poesia é tudo o que queiramos chamar de poesia. Falta entender que É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã.

Letras de música, mil e um sentimentos infantis empilhados na página de papel, uns tantos versos desajeitados, rapte-me camaleoa / adapte-me a uma cama boa, desses que parecem não ter pé nem cabeça, muitas vezes ridículos, tão ridículos como cartas de amor, pois é, esses versos também são poesia.

Diante do imaginar tais possibilidades surgem soldados da obscuridade a proclamar que isso é absurdo, despropósito, despautério, quinhentos outros palavrões a crivarem de estampidos reacionários o emissor dessa ideia infeliz. Não deixam espaço para que o mestre e o aprendiz encontrem o caminho para Juilliard ou Salzburg – lá onde músicos e poetas são amigos do rei.

O cotidiano e o sublime não pagam imposto para o desespero. Sonhar não faz parte do brinquedo. Dessa brincadeira. Talvez o mundo não seja pequeno / nem seja a vida um fato consumado.

Há quem julgue que a poesia precisa ser um amplo painel da cultura superior. Drummond de Andrade, João Cabral, Manuel de Barros como corporizações da poesia. Há quem abandone lágrimas, flores, dores e rimas paupérrimas. Por fidelidade ao propósito também ignoram amores infelizes. Tolice. Eu vou fazer tudo o que eu puder / eu vou roubar essa mulher pra mim / numa noite especialmente boa / não há nada mais que a gente possa fazer. Tudo é poesia, tudo é música.  Poesia é música, música é poesia. Assim como o silêncio – canção, benção, oração.

Nem  que seja para fazer barulho, ler versos em voz alta aproxima uma arte da outra. É quase um cantar, é quase um altar. Não há dúvidas. Não há dívidas. Esse é ponto pacífico. Ou atlântico. Pouco importa o oceano. Haveremos de naufragar. Alegres. Juntos.

Embolar a poesia e a música em um único corpo – explodindo de tesão. E, como lembra o menestrel, Se não eu / quem vai fazer você feliz?


Raul J.M. Arruda Filho, 53 anos, Doutor em Teoria da Literatura (UFSC, 2008), publicou três livros de poesia (“Um Abraço pra quem Fica”, “Cigarro Apagado no Fundo da Taça” e “Referências”). Leitor de tempo integral, escritor ocasional, segue a proposta por um dos personagens do John Steinbeck: “Devoro histórias como se fossem uvas”. 
Todos os direitos autorais reservados ao autor.

1 comentários:

Fátima Venutti disse...

Pertinente o texto para o momento. Verdade mais que absoluta: a poesia está para a música , assim como o inverso disso. Chega a ser tamanha ignorância quando alguém diz: eu não gosto de poesia, não tenho saco pra ler "isso", mas amo a música.
A poesia percorre em minhas veias, desde sempre. A música é a sua consequência inevitável. Parabéns pelo texto.

Fátima Venutti
Escritora
Blumenau/ SC