A Menina que segurava as Estrelas [Caio Gomez]

A Menina que segurava as Estrelas

Escrito por: Caio Gomez

O sangue quente que ainda perdia-se no brilho de meus olhos tornava minha visão turva e desconcertante. Deixar o lugar onde definhamos os mais singelos pedaços de nossa alma não é uma tarefa fácil. E sair dali, o antro no qual me despedacei nas amarguras da solidão, ajoelhado e ensanguentado, com a dor dilacerando meu coração, leva a uma demasia de conflitos internos desconfortantes. Ali, arranquei as mais gritantes lágrimas da minha vida. Deixei meu coração cair no chão e meu corpo perder-se nas contundências da queda.
A noite estava fria. Tenebrosa. O céu, negro, reprimia minhas mais profundas emoções. Eu estava com medo, mas, ao mesmo tempo, sentia-me forte. Uma vivacidade preenchia minha alma, tocando meu âmago como a mão inocente de uma criança. Com meus olhos voltados para as alturas, vi a mais escura das luas a vigiar-me. Encarando-a, ergui minhas mãos e enxuguei as lágrimas que decoravam meus olhos. Eu precisava continuar meu caminho.
Meus passos, pesados, faziam minha mente querer abstrair-se nas particularidades da escuridão. Eu não via ninguém. Olhava constantemente para o meu lado, na intenção de ver o brilho do Anjo de Cinzas mais uma vez, mas ela não estava aqui. Onde será que ela havia de estar? Por que me deixaria sozinho, perdido nas trevas?
Mas foi o brilho de uma estrela que me desviou a atenção. Era tão bonito, tão intenso e forte… Era confortante. Trazia-me paz. Olhei para o céu, mas nada vi. Ao concentrar minha visão de fronte às árvores, vi uma criança, portando, em sua mão, um objeto estranho. Era uma estrela. A mais linda das estrelas que já pude ter o prazer de observar. O brilho preenchia o ambiente, trazendo um novo significado às coisas que estavam à sua volta. Como ela conseguia fazer aquilo? Segurar algo tão belo em sua mão? Fascinado com a beleza da criança, corri ao seu encontro.
Ao chegar cada vez mais perto, o brilho tornava-se ainda mais devastador, arrancando de mim as mais impuras emoções que dilaceravam meu coração. Eu me sentia tão bem, tão forte. Inconscientemente, avancei em sua direção e abracei a criança. Um abraço puro, sensível aos olhos dos homens. Foram segundos de conforto resumidos em um prazer inexplicável. Imensurável. Larguei a criança, e, encantado com a maresia de sua ingenuidade, sorri.
Era impossível olhar para a estrela que resplandecia em sua mão. Seu brilho era potente, construindo uma fortaleza de significados abstratos aos olhos dos francos. Seus pés, singelos como a mais cativante das rosas, estavam machucados. Repleto de cortes profundos e secos.
- Por onde tens andado para trazer este desconforto terrível aos seus pés?
- Tropecei e caí, enquanto eu brincava de andar sobre os espinhos da vida. – Respondeu a criança, que beirava as esquinas dos seis anos.
- E o que fazes aqui, sozinha, nos infortúnios desta escuridão? E por que seguras esta estrela em sua mão?
- Eu estava desencontrada, estava tão escuro. Achei esta estrela perdida em meu coraçãozinho. Um dia, quando eu queria ir brincar lá fora, não pude achar nada para guiar meus caminhos. Foi então que consegui esta estrela. Ela me trouxe até aqui.
Suas vestes eram tão delicadas e dançantes. Seu cabelo, dourado como a mais bela joia customizada pela insípida natureza, escorria em sua face, perdendo-se no encanto de seus olhos. Enquanto a menina falava, eu admirava a tamanha inocência que rodeava sua existência. A cada palavra que era expulsa de sua boca, um misto de sensibilidade e carinho atingia meu coração.
- Tu és tão bela, menina. Imagino a dor que seus pés devem estar lhe causando.
A Menina que segurava as Estrelas então sorriu, eliminando consigo um enumerado de sentimentos bonitos.
- Quer brincar comigo? – Disse a Menina, com tamanha inocência.
- Não posso brincar agora. Eu estou concentrado em uma busca. Perdi alguém muito especial. Quero tornar a vê-la novamente. – Respondi.
- O intelectual não é tudo, moço. Fica aqui comigo. Vamos brincar com os brinquedinhos da vida. Quer ser meu amigo?
Era impossível recusar a comovente oferta da Menina que segurava as Estrelas. Eu nunca tive um amigo, sempre recusei todos os convites oferecidos. Mas ali, eu encontrei algo diferente. Algo belo. Puro.
- Sim. – Respondi, oferecendo não só a beleza de meu sorriso, mas também o meu coração. Pois ter um amigo é isto. Não damos somente nosso carinho ou nosso apoio. Damos nosso mais íntimo sentimento: nosso amor e todas as ramificações que o rodeia.
A Menina que segurava as Estrelas pulou de alegria e agarrou minha mão.
- Vamos brincar aqui, e depois eu te ajudo a procurar o que você quer encontrar.
Alegre, aceitei. É difícil recusar algo tão belo e vindo de um ser tão puro. Sentei no chão, e, ao lado da menininha, comecei a brincar.
E por ali ficamos, abrigados pelo brilho da estrela que repousava em sua mão. A noite rodeava as árvores, mas a escuridão não ousava entrar no antro de nossos corações. Estávamos protegidos pelo valor de uma amizade. Algo simbólico e perfeito. O laço selado por um sentimento puro. Olhar para o lado e ver o sorriso de uma criança, não tem preço.
Enquanto brincávamos, a noite assistia ao espetáculo protagonizado por mim e pela Menina que segurava as Estrelas.
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