Entrevista com Joyce Cavalccante - Presidente da REBRA (Rede Brasileira de Escritoras) [José Luiz Longo de Almeida]


Entrevista com  Joyce Cavalccante - Presidente da REBRA (Rede Brasileira de Escritoras) 

Por José Luiz Longo de Almeida

LIVRE COMO PASSARINHO 

Os pensamentos voam ... e nessa viagem vamos moldando, amalgamando o entexto, o texto e o contexto de nossas narrativas. A filha de Fortaleza, a Terra da Luz, que passou a infância em Sobral, já se sentia uma escritora real ou uma sonhadora da literatura, quando vivia no Ceará? Como essa aptidão se corporificou? 

Eu tinha por volta de uns 5 anos quando me permitiram fazer, sem ajuda, as pontas do meu lápis. Naquele tempo, e naquelas bandas, se usava giletes para isso. Não me lembro de apontadores ainda. Pois foi nesse momento que a consciência de ser uma escritora nasceu e me acompanha desde então: foi quando fiz a primeira ponta de lápis e senti o cheiro da madeira vermelha e perfumada, que se chamava Pau-Brasil. Foi uma emoção sensual e, movida por ela, eu passei a ter prazer escrevendo. Depois, a mesma sensação de formigamento foi sentida pela caneta azul-marinho que ganhei de presente do meu pai quando passei ao 2º grau. Mais adiante, ganhei uma máquina de escrever do pai de minhas filhas e desandei a usá-la. Nela, martelei quatro dos meus 10 livros. Guardo até hoje esse chamego pelo meu computador que, anos depois, substituiu o lápis, a caneta e a máquina. E carrego meu iPad para onde eu vou. Eu tenho amor físico pelos menos meus instrumentos de escrita, não é estranho? 


Como num processo contínuo ... 

E as coisas foram acontecendo uma atrás da outra. Sem que eu notasse, foram convergindo. Nunca me esforcei para escrever. Apenas assisto as letras se unirem em palavras e as palavras em narração. Tudo muito naturalmente.

No processo criativo, os estilos vão brotando simultaneamente? Ou você é capaz de diferenciá-los: cada enredo no seu devido tempo?

As obras literárias têm personalidade e já nascem sabendo o que querem ser quando crescer. Quando morei nos EUA, decidi que iria escrever um conto tomando como inspiração o jeitinho da babá que me criou. Júlia Borges era o seu nome, personagem pronta, como algumas vezes se encontra pela vida. A ideia era magnífica mas um romance de longo curso. Daqueles livros bem grossos, bons de ler em dias de chuva. Quando enxerguei isso, a coisa deslizou como se fosse uma faca cortando manteiga. E foi assim que escrevi ‘Inimigas íntimas’ romance consagrado, prêmio APCA, traduzido. E ainda: ‘Inimigas íntimas’ se tornou apenas o primeiro volume da teatrologia sobre a qual me debruço nesses últimos anos. ‘O cão chupando manga’ é o segundo volume e o terceiro, ‘Deus é brasileiro mas mora em Miami’ já, já será publicado. No princípio era apenas um conto. 

Você está empenhada em sua primeira obra para o público juvenil. O que difere? 

Tenho no prelo uma novela juvenil intitulada ‘Entre o ver e o imaginar’. Nela, misturo fantasia e realidade em doses precisas, assim como a própria vida o faz. Proponho uma fórmula que respeite a inteligência dos jovens, pois é só isso que eles pedem. Uma coisa que desdobre suas asas. Me deu prazer escrevê-la. E só de traquinagem, vou apresentar essa ousadia na feira infantojuvenil de Bolonha (Itália), em mar-14, quando o Brasil será também o país homenageado. 

E o livro seu que está sendo lançado na França, no Salón du Livre de 2013 ... 

É um livro lindo, quase um álbum. Chama-se ‘São Paulo em scène’ e glorifica essa cidade na qual eu moro e a qual eu amo. Estou junto com outros autores que se dispuseram a descrever o seu sentimento por essa cidade. É uma linda iniciativa da promotora cultural Diva Pavesi, uma mulher emblemática, que também faz parte da Rebra e nos representa na França.

Quando e como amadureceu a ideia de montar uma rede para colaborar com a divulgação do trabalho das escritoras brasileiras? 

Foi quando estávamos em pleno ‘Premier Encuentro Internacional de Escritoras’, e era ago-98 numa bela cidade argentina chamada Rosário. Foi justamente lá onde nasceu Che Guevara. Acho que a simples evocação desse nome me fez mais valente para permitir-me essa inspiração. Uns seis meses antes, já havia sido fundada a Relat (Rede de Escritoras Latinoamericanas), organização da qual sou uma das diretoras. Era de tarde e eu escutava os queixumes de Mariela Sala, escritora peruana e também presidente da entidade, de como era difícil a comunicação com o Brasil por causa da língua diversa e por causa do exotismo de nosso comportamento. Daí, juntei os pés e disse: “Está bem. Vou fundar uma rede de escritoras brasileiras para fazer a interface com a Relat e demais redes que se fizer necessário.

Na data de hoje, quantos associados tem a Rebra? 

Somos hoje 4.110 escritoras unidas ao mesmo ideal da literatura. Temos representantes em 10 países e em 20 capitais no País. O mais interessante é que, mais do que escritoras, cada uma de nossas associadas, ou morando no Brasil ou no Exterior, trazem consigo um projeto para agregar ao nosso projeto. Eu penso que somos como matrioshkas, brinquedo tradicional na Rússia constituído de uma série de bonecas colocadas umas dentro das outras, da maior até a menor. Exemplo: o grupo Adote um autor, recentemente formado na Europa, cuja a maioria de seus membros saíram da Rebra: Alexandra Magalhães Zeiner, Sylvia Roesch, Karina Orsini Martinelli, Lúcia Amélia Brülhardt, Mara de Freitas Hermann, Jacilene Braatas, Roseni Kurániy, Ana Berlin. Abraçamos todas as causas desde que sejam justas.

Qual o impacto da Feira de Frankfurt nas ações de curto e médio prazos da rede? 

Atualmente, esse projeto ocupa totalmente minha cabeça. Será um marco. Não vamos desperdiçar o momento Como presidente de uma associação tão significativa para a literatura brasileira como a Rebra, estou jogando para ganhar. Há um ano participo de todas as reuniões que envolvem esse projeto, xeretando e vendo onde podemos nos encaixar. Já definimos algumas ações como a apresentação de três das nossas antologias no catálogo de livros brasileiros. Elas também serão expostas no estande oficial do Brasil. Teremos uma data para autografá-la e gerar mídia. Estamos preparando releases em vários idiomas para distribuirmos a agentes literários e editores. Tais publicações funcionarão também como catálogo. Individualmente, como escritora, também estou envolvida com as perspectivas desse evento. Estou investindo pesado para levar três dos meus 10 títulos para trabalhar nessa oportunidade: ‘Inimigas íntimas’, ‘O cão chupando manga’ e ‘Longos trechos de dias líquidos’. Inclusive estou reeditando o primeiro com essa finalidade. Quero impressionar, pois, afinal todo mercado termina sendo um jogo de sedução. Ao lado disso, incentivarei todas as nossas escritoras associadas a fazer o mesmo. Queria muito que as mulheres brasileiras fossem a estrela dessa festa.

Convite para o lançamento da antologia: "Literatura das Mulheres da Floresta":

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