Pretty Like Drugs [Wuldson Marcelo]

Pretty Like Drugs

“A trilha de corpos dava acesso à última pista para o desvendamento do segredo que mortificava Úrsula Yamada. Ela...”. Não! Como é difícil começar uma narrativa policial. Ainda mais quando as palavras iniciais soam a desfecho. Eu quero começar o romance com algo impactante. Já sei! Vou tecer uma forma que una um falso concretismo com o enredo policialesco.


                Tiros Transa Trama Transe

Tara Tramoia Trâmite

Bobagem! Numa noite de verão escaldante. Clima de filme noir.

“O papel recusa-se a colaborar”, sentenciou o infortunado escritor! O papel causa pânico, expõe a chaga da falta de criatividade. Eu quereria escrever uma estória que fosse como ter um projetor na cabeça, tudo passasse como se já estivesse pronto. Le grand final. Vou ouvir Miles Davies.

“Um detetive amava uma mulher suspeita de assassinar o marido. Ela, que se chamava Úrsula Yamada, era a perfeita femme fatale. Nissei de estupendos lábios volumosos (inusitados para uma descendentes de japoneses, diria o narrador em off para não se comprometer, obviamente), lábios de fogo. Seus longos cabelos pretos, olhos castanhos faiscantes e um andar que comportava elegância e sensualidade de maneira irresistível...”.
Não, a história está sem rumo, é puro clichê e não tem imagens. Em suma, é fraca. Um detetive... É... Não... “Um detetive suspeito de assassinar a amante, que por sua vez era a principal investigada na morte de um senador, proprietário de uma luxuosa mansão, onde funcionava um clube de fetichismo. Essa mulher, amante do detetive, era a preferida do senador, que não sabia que ela (de nome Úrsula Yamada) mantinha um caso amoroso com o detetive. Ao saber a ameaçou. Duas horas depois, o senador foi encontrado morto em uma das banheiras da imensa mansão...”. Isso cheira a inverossimilhança.

Vou sair para comer uma pizza. Ver os transeuntes admirarem a cidade e admirar a admiração deles.

O computador (o monstro) intimida o autor (o Don Quixote). O autor deve tocar as teclas (caninos horríveis ou dentes de alho a exalarem um odor mortal). /a tela de proteção (o portão do castelo) é de um desenho japonês (Sailor Moon que venceu Lara Croft numa luta justa pelo direito de ocupar a posição). Fim do pequeno devaneio.

“Úrsula Yamada dirigia pela noite de Tóquio (ou de Cuiabá?). Uma brasileira (ou uma japonesa?) assustada pelos crimes da Máfia (a Yakuza ou a Camorra? Em Cuiabá?). O seu automóvel (um Porsche?) rasgava a escuridão em uma fuga desesperada da morte. A Máfia queria o seu fim. O seu cadáver havia sido prometido a Yoko Keiko (ou Francesca Fontana?), a herdeira do clã Keiko (ou família Fontana?). Úrsula era uma mulher sedutora que sabia demais...”.

Não! Isso está longe de ser uma mangá, um romance policial ou qualquer outra coisa imaginada.

Vou beber vinho. No toca CD, Mariana Aydar. A estória flui como circulada por um líquido vermelho de teor alcoólico. O balanço da taça cria ondas que transmitem uma possível inspiração. “O sorriso de uma bela mulher. A mulher da areia que se instalou nos olhos de Eriberto Dias. Ele não sabia quem ela era. Alguém na praia a chama de Úrsula Yamada. Assim pronunciado o sobrenome com força, como se fosse o clamor de uma convocação que Eriberto deixou ressoar em seus ouvidos...”.

Um som na rua. Um beijo estalado na chuva. Eu quereria estar osculando esse fantasma batizado de Úrsula Yamada.

Romance policial. Capítulo I. Desejava ser influenciado por Dashiell Hammett. Capítulo II. Claramente inspirado em Rubem Fonseca. Capítulo III. Raymond Chandler é o homem a ser copiado. Capítulo IV. Algo na linha de Patrícia Melo. Capítulo V. David Goodis será o espelho.

Vou tentar a ideia de uma prosa (poema) ou de um poema (prosa) que em nada vai acrescentar a maldita “desecriatividade” de uma noite insone. 

        I.Se ama 
crava no seio a adaga
no cravo alvo do seio
que se ama.
Bobagem! Numa noite de verão!

Alta madrugada. Aqui não residiu a embriaguez. Nefasta audácia do bloqueio criativo. Prazo de entrega do texto pretendido pelo editor esgotando-se. Ele expira e eu não respiro. Acesso um videoclipe da Björk. Eu danço no escuro.

“O telefone toca. Uma voz adocicada sopra uma frase, 'Cuidado, ele a matou'. Aquelas palavras unidas com tanta delicadeza e pronunciadas com voz sussurrante, sobressaltaram Úrsula Yamada. Quem morreu? A mulher que não deixou nomes ou maiores informações, proferiu o enigma e desligou o telefone imediatamente. Úrsula intrigada olhou o número que o identificador mostrava. Para sua surpresa o número que aparecia no visor era o seu. Úrsula Yamada sentiu um calafrio. Observou ao redor e não percebeu nada suspeito...”.

Já sei! Na verdade, não sei. Uma proposta. Uma sugestão bisonha? Eu vou reinventar o   Psiquê. Adicionarei um crime. Todo o crime precisa de um suspeito. Neste caso, eu serei o principal acusado. O homem que enforcou a literatura mundial.

“Uma mulher chamada Úrsula Yamada perambula pelas ruas de Cuiabá. Uma jovem de semblante meigo caminha por Paris. Seu nome é Úrsula Yamada...”. Espera aí. Isto é um ponto de partida que imita irregularmente “A Dupla Vida de Veronique” de Kieslowski.

           Procuro num site o videoclipe de “Shame” de P. J. Harvey.

O nome do livro pode ser “O Cadafalso”. O enredo... Não. O título será “Do Sublime à Lama em Seis Dias”. Parece idiota! O romance pode se chamar “Sem Título, a História da Inépcia de Geovani Lins”. Esse homem, Geovani, está endividado. É devedor do agiota Tinho Ferreira. Ele estava desempregado e recorre a um empréstimo. Fora demitido acusado de furto na lanchonete onde trabalhava. Tinho Ferreira soube da demissão e enviou alguns capangas para cobrar a dívida. Na verdade, era só para dar um susto. A namorada de Tinho, Úrsula Yamada, que era também, amante de Geovani, ouviu o ato ser combinado e temeu pela vida do amado. Ela o avisa do plano de Tinho, exagerando nos contornos dramáticos. Geovani pensa que será morto. Decide não fugir e encarar os funcionários do agiota. Ele retira seu 38 do armário e espera. Quando os homens chegam Geovani mantém-se frio e aguarda qualquer sinal que indique que sua vida está em perigo. Quando um dos capangas diz, “Ou paga o chefe ou acabamos com você, seu morto de fome”, e deixa cair o cigarro que fumava, Geovani interpreta o gesto como autorização para eliminá-los e atirou automaticamente contra os três oponentes...”. Não! Não está bom. Parece clichê. Que tal alguma coisa na linha de “Pulp Fiction”.

Alta madrugada. Vou beber um copo de vinho. Vou à janela ver o céu cinza coberto de poluição da cidade grande. Metrópole recheada de crimes. Cada tiro, cada facada, cada atropelamento. Cada envenenamento pode ser um ponto de partida para uma história. Poderia abrir um jornal e me inspirar no cotidiano violento. Cada página lida é como um açoite a revelar à podridão da carne humana. Da alma humana. Há vultos no meu quarto que sussurram a impossibilidade da criação. Leio os versos de um poema sobre imaginação e miséria. Na verdade, eu inventei esta poesia em minha mente, mas já a desfiz. Eu vou escrever sobre insônia e bloqueio criativo.

“Uma bela escritora de nome Úrsula Yamada planejava engendrar um romance surrealista noir. Era o que ela desejava. Úrsula pensou em algumas referências: os quadros de Salvador Dali, os filmes 'Laura', 'Pacto de Sangue', 'Chinatown'. Surreal, as produções de Luis Buñel. Filmes de terror asiáticos e mitologia grega (esses dois últimos ingredientes, Úrsula teria de pensar bem para encaixar na trama a ser desenvolvida). Passo dois: Úrsula está com um bloqueio criativo, encara o papel e nada escreve. Ela tem insônia e sua mente transborda de ideias e sua imaginação está abarrotada de voos pungentes e oníricos (mas ela não dorme). Úrsula não consegue escrever, somente idealizar e fantasiar. Isso a leva ao desespero e Úrsula diz, “Pretty Like Drugs”. Era o que sentiu, porque sabia que aquela situação era bela como as drogas que nunca experimentou. Tudo era belo, pois nada é proibido no imaginário de um viajante, de um mergulhador no espírito das belas-letras, dos fotogramas, das visões pictóricas. O nome de seu livro seria 'Pretty Like Drugs'. Úrsula com o tempo passou a ver no quarto uma mulher que...”.  Não! Não pode ser esta estória. Porém, toda a criatividade do mundo é necessário para encontrar a amálgama entre o noir e o surrealismo.

Esboços de histórias rabiscadas nos milhares de papéis espalhados pelo quarto e muitas anotações arquivadas no computador. Fragmentos, rastros, indícios que não possuem faces.

“O homem a seguia por todos os lugares. Desde que ela desceu do táxi até o museu no qual seu pai era curador da mostra sobre arte egípcia. O homem de aspecto sereno encantou Úrsula Yamada, mas a perseguição a deixava intranquila. Não o conhecia e duvidava que a sua beleza tivesse atraído o desconhecido ao ponto dele empreender uma caçada, pelas ruas molhadas da Metrópole...”. Não! Não! Como a coisa iniciou, corre o risco de se parecer com “O Código Da Vince”.

Vou ao meu toca CD e coloco Adriana Calcanhoto para cantar. Ouço “Esquadros”. Bebo um copo de vinho pensando no título do romance que pode ser “Pretty Like Drugs”, assim mesmo em inglês. Mas qual seria o enredo? Título: Pretty Like Drugs; personagem central: Úrsula Yamada; enredo: ?; referências: cinema noir e pinturas surrealistas; temas principais: fantasia, solidão e violência.

Eu penso em procurar o sono. Dormir pode ser revigorante. Quem sabe fique entre o sonho e o devaneio.

Raios solares invadem meu quarto e ainda desperto, esqueço o que vivi durante a noite.

     (O final não ficou bom!!! Recomeçarei de onde não encerrei). 


Wuldson Marcelo é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea e graduado em Filosofia (ambos pela UFMT). É revisor de textos, autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (Editora Multifoco, 2013) e um dos organizadores da coletânea “Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na Cidade Verde” (Editora Multifoco, 2013).

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