"Natal Branco", um conto de Quim Monzó [QUIM MONZÓ]

"Natal Branco", um conto de Quim Monzó

Artigo publicado na Folha de S.Paulo

QUIM MONZÓ 
tradução RONALD POLITO 
ilustração DANIEL BUENO

SOBRE O TEXTO Inédito em português, este conto de Quim Monzó integra a coletânea "Tres Nadals" (Três Natais), lançada em 2003 pela Quaderns Crema, selo da editora Acantilado para livros em catalão. Considerado um dos principais prosadores de seu idioma, o autor de Barcelona teve títulos editados em mais de 20 idiomas.

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No princípio tudo continuava normal, se por normal se entende que um ser fabuloso, de cabelos encaracolados louros até os ombros e asas de pena de ganso, como as que às vezes escapolem pelas costuras dos edredons, descesse até a casa de Maria e, lá, no átrio de colunas românicas -isso sim é que era estranho: colunas românicas em Nazaré- lhe anunciasse a boa-nova.

Mas, de fato, tudo continuava exatamente desse jeito: o ser fabuloso, de cabelos encaracolados louros até os ombros e asas de pena de ganso, com olhos amendoados entre o azul, o verde e o rosa, e de uma beleza, mais que inenarrável, assexuada, desceu até a casa de Maria -uma casa humilde, mas limpa e bem cuidada, com vasos de gerânio ao longo do átrio de colunas, românicas tal como dissemos- para anunciar-lhe a boa-nova: que era cheia de graça e bendita entre todas as mulheres. Maria ficou boquiaberta.

O arcanjo, vendo a perturbação da mulher, entendeu que o aparato cênico tinha sido realmente impressionante; talvez tivesse pesado um pouquinho a mão. Para tranquilizá-la disse que não precisava ter medo, que somente tinha vindo anunciar-lhe que teria um filho que se chamaria Jesus. A mulher -claro- aceitou a notícia de bom grado, e o arcanjo desapareceu instantaneamente, com a mesma desenvoltura com que havia aparecido. Horas mais tarde, quando o marido, José, voltou da oficina -era carpinteiro-, Maria lhe contou o que havia acontecido. José ficou pasmo.

Também fica dentro da normalidade mais absoluta a disposição do imperador Augusto, que ordenava que todos os súditos do Império Romano se recenseassem, cada um no povoado ou na cidade de onde a família fosse originária. Por isso, José e Maria pegaram o burro e seguiram rumo a Belém. Maria ia sobre o animal, sentada de lado, e José a pé, puxando as rédeas.

O que -como as colunas românicas- também não era nada normal era aquela história toda de neve. Quando chegaram a Belém viram que o povoado inteiro estava coberto de neve, até o horizonte, sobre o qual pairava um céu negro e com estrelas de cinco e seis pontas, imóveis e como que recortadas. Na Palestina a neve era um fenômeno meteorológico quase ignorado. Gerações e gerações de cidadãos nasciam e morriam sem tê-la conhecido, sem que isso os preocupasse nem um pouco. E se já tinham ouvido falar, era por viajantes de países distantes, que mencionavam até mesmo montanhas onde a neve é eterna. Os nativos os escutavam encantados, mas, assim que os viajantes terminavam a narrativa, voltavam ao trabalho sem que a neve lhes tirasse nem uma hora de sono. Por outro lado, agora tudo estava nevado: as montanhas, as ruas, os terraços das casas, a barraca da vendedora de castanhas... Era neve em pó, tão em pó que parecia farinha.

Por causa da afluência de gente para se recensear, não encontraram nenhum quarto livre em toda Belém. Os habitantes não eram muito acolhedores; nem a imagem de uma mulher grávida os movia à piedade. Por isso se viram forçados a instalar-se em um estábulo abandonado. Limparam um canto, perto de um boi adormecido e do burro que levavam. Foi lá que, no dia 25 de dezembro, Maria deu à luz. Era um menino lindo, saudável e chorão. José pegou-o nos braços para limpá-lo. Mas Maria reclamou novamente sua atenção. Estava nascendo um segundo menino.

Eram dois meninos lindos, e cada um com sua auréola tipo holograma sobre a cabeça. Depois de alimentá-los e pôr as fraldas -sorte que Maria tinha previsto algumas de reserva-, deitaram-nos sobre um monte de palha, um ao lado do outro. Moviam as mãos. O boi e o burro contemplavam a cena com o rabo do olho.

- Você tem certeza de que ele falou em um menino? Será que não eram dois e você não prestou atenção?

José não entendia o que tinha acontecido. Que fossem dois perturbava todos os planos. Até mesmo uma coisa tão pouco importante como a questão do nome. O arcanjo tinha noticiado que havia de se chamar Jesus. Era um nome que não os desagradava: tampouco os entusiasmava, se temos de ser sinceros. Naquela época, os nomes predominantes eram Sandra, Vanessa, Kevin, Jonathan e mesmo Sue Ellen, que lhes pareciam frívolos e pretensiosos. José e Maria haviam considerado outros nomes e até tinham feito uma lista dos que preferiam: Davi, Samuel, Alexandre, Abel, Moisés, Ivã...

De todos, o que mais lhes agradava era Alexandre. Era um nome sonoro e vibrante. Se o arcanjo não tivesse deixado tão claro que haviam de chamá-lo Jesus, teriam-lhe posto Alexandre, sem nenhuma sombra de dúvida. Mas, enfim, como não podia se chamar Alexandre, para Maria o nome de Jesus já parecia bom. Em algum momento, José tinha proposto que se chamasse como ele: José. Muitos amigos seus punham seu nome no primogênito. Por que não ele? Maria não tinha nem querido ouvir falar de uma possível troca.

- O arcanjo disse que se chamaria Jesus e vai se chamar Jesus.

Não falaram mais nisso. Iria se chamar Jesus; estava decidido. Mas agora se viam com dois meninos, o dobro do que esperavam. Que nome colocariam neles? Depois de muito ruminar sobre o tema, encontraram a solução. Um se chamaria Jesus Maria e o outro Jesus José. Assim respeitavam a ordem de dar o nome de Jesus e de passagem satisfaziam o desejo de José: ao menos um dos dois se chamava como ele, ainda que fosse o segundo nome.

Esse era apenas o princípio das duplicações. A partir daquele momento -refletia José- tudo seria duplo. As fraldas, as roupinhas, as chupetas, o consumo de baby wipes.

Um barulho de cascos o tirou da reflexão. Eram camelos que atravessavam, por uma frágil ponte de madeira, as águas do rio, que pareciam imóveis e de papel prateado. Quando chegaram ao estábulo, os três Reis Magos ficaram atônitos. Era a mesma surpresa que Maria e José tinham visto nas caras dos pastores que haviam se aproximado para adorar o menino e, em vez de um, tinham encontrado dois. Um dos pastores, que tinha trazido como presente um carrinho de bebê Chicco de um assento, correu para trocá-lo por um modelo duplo. Melchior, Gaspar e Baltazar -homens acostumados a mil batalhas e destros em tomar decisões- reagiram de modo rápido e, sem que nem Maria e José percebessem, fazendo como se procurassem os presentes, dividiram em duas partes mais ou menos iguais o ouro, o incenso e a mirra.

Os dois eram filhos de Deus? Ou só um deles era? A pergunta não tinha resposta clara porque, embora um deles (Jesus Maria) caminhasse sobre as águas quando os lavavam na banheira -deixando admirado não só seu irmão como também os pais-, era o outro (Jesus José) que, quando tinham acabado os danoninhos, os multiplicava sem problemas. Essa dualidade -calculava Alexandre enquanto colocava o "caganer" 1 ao lado do padre com guard-chuva- os manteria ao longo dos anos, até o fim de suas vidas. Alexandre voltou a alinhar os dois bercinhos, contemplou outra vez o presépio e correu gritando para seu pai, reputado membro da Opus Dei, que fosse vê-lo. Estava certo de que o deixaria feliz por seu engenho: em vez de jogar fora a figurinha do menino Jesus do antigo presépio (uma das poucas que não estavam trincadas), incorporou-a às novas, que haviam comprado um dia antes na feira de Santa Lúcia. Não sabia que, naquela noite, seu engenho lhe custaria ir dormir sem jantar. 

NOTA 
1. Figura em posição de defecar, popular nos presépios da Catalunha 

QUIM MONZÓ, 51, é escritor catalão, autor de "O Porquê de Todas as Coisas" (Globo). 
RONALD POLITO, 52, é tradutor. 
DANIEL BUENO, 39, é artista gráfico.

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