Baile Infantil (Um conto de carnaval) [Jean Marcel]

Baile Infantil (Um conto de carnaval)


Na primeira vez que a viu, o que mais lhe chamou a atenção foi o seu sorriso. Está certo, reparou na bunda também! Mas curiosamente, tratando-se do Vicente, foi o sorriso que atraiu o seu olhar. Era um sorriso iluminado. Não era tímido nem contido. Era do tipo que só as mulheres muito seguras de si ousam esboçar. Não havia dúvida: o sorriso completava o conjunto dando-lhe personalidade. Dito assim poder-se-ia achar que o resto não merecia atenção, o que seria, é bom que se diga, um julgamento precipitado e injusto. Tinha tudo assustadoramente no lugar e nas medidas apropriadas para uma mulher de – avaliou-a de alto a baixo – seus trinta e tantos anos.

Conheceram-se na saída do concurso infantil de fantasias. Ele com o Vicente Júnior pela mão e ela com a filha chorando compulsivamente no seu colo, o que acabou promovendo a aproximação.

– Nossa, que lindinha! Chora não... É a Rapunzel?

– Eu sou a "Bela... Beeeeela"! – gritou a menina, quase convulsionando de tanto chorar e soluçar.

– Desculpa, ela está chateada porque queria muito ter ganho o concurso.

– Ah, mas merecia – tentando consertar – essa fantasia de Bela Adormecida está linda! Cuidado com a Bruxa! Não vá aceitar a maçã... – Brincou com a garotinha, que ao ouvir a tentativa de elogio aumentou o choro em mais trinta decibéis.

– Psss. – sussurrou a mãe – Não é a Bela Adormecida... É a "Bela" da Bela e a fera! – e os dois riram juntos para indignação da menina que agora tentava arrancar o próprio cabelo.

– E o garotão aí de verde? – perguntou-lhe a moça apontando com o queixo para o Júnior – É o incrível Hulk?

– Sai fora, tia, eu sou o Shrek! – fazendo pontaria com a latinha de spray.

– Ai ai ai... – anteviu o Vicente, que sabia que o filho jamais blefava. Foi tudo muito rápido, não mais do que três ou quatro segundos, o suficiente para que o Vicente recebesse o jato de espuma ficando com o rosto completamente branco, já que se lançou preventivamente entre os dois ao perceber a intenção do filho.

– ...E eu agora sou o abominável homem das neves. Prazer! – tentou continuar a conversa, oferecendo a mão para um cumprimento. Um sorriso amarelo, parcialmente encoberto pela espuma, tentava disfarçar a irritação com o filho.

Não havia como... Despediram-se em seguida. A moça arrastando pelo braço a filha, que se recusava a sair de lá sem o troféu, e o Vicente dando seguidos safanões no Júnior, que suplicava repetidamente: "pára, pai, foi brincadeira"... "pára, pai, é carnaval!"

*   *   *

Na segunda vez que se encontraram, quase uma hora depois, ele avistou-a de longe, por acaso. Ela segurava a "bela" pela mão enquanto aguardava sua vez na fila do pipoqueiro.

– Que tal uma "pipoquinha", Júnior? – o Vicente sugeriu ao filho, já arrastando o moleque em direção à fila.

– Eu preferia guerra de confete no salão, pai!

– Você precisa comer alguma coisa!

– Então eu quero um cachorro-quente!

– Pipoca alimenta!

– Ãhn? Como assim, pai? Você sempre diz que pipoca é porcaria...

– Mudei de ideia. Sabe-se lá o que tem dentro de uma salsicha! E a maionese? Um perigo! O catchup, então? Feito de tomate... Puro agrotóxico! Já a pipoca vem do milho, não vem? É da natureza. Quer pipoca?

– Prefiro cachorro-quente!

– Uhm, prefere, é?! Mas vai comer pipoca! – encerrando o assunto e postando-se estrategicamente no final da fila, exatamente dois lugares atrás do seu verdadeiro interesse. Era a chance de observá-la ostensivamente sem ser notado. E foi o que fez!

Na fila, separando-os, logo à frente estava um garoto de cartola, óculos redondos, casaco marrom apesar do calor, e uma galinha de borracha pendurada nos ombros.

– Você seria... – tentando adivinhar a fantasia do garoto.

– Zingard Limoiosa! – Pong! Recebeu uma lambada na canela com uma vara bem fina.

– Ele é o Harry Porter, pai!

– Ai, odeio bruxos... – ainda se recuperando do susto – Então explica essa galinha no ombro dele?!

– Dããã... É uma coruja, pai!

– Ridículo, não acha, filho? – sussurrou no ouvido do Júnior – Não sei como um pai pode vestir um filho desse jeito!

– É, né, pai?! – devolve o Júnior, vaidoso, orgulhoso da sua sunguinha, do colete esfarrapado e do corpo todo pintado de verde. – Shrek é mais legal, né?

Na frente do "Harry Porter", outro pai com seu pupilo ao lado. Visivelmente impaciente com a fila, o tal "senhor" se autoentretinha num processo meticuloso de sucção bucal, chupando cada um dos dentes a fim de limpar as frestas, produzindo diferentes caras, bocas e ruídos. Enquanto isso, o garoto, ao contrário, parecendo, este sim, não ter nenhuma pressa, tirava tranquilamente nacos de meleca do nariz, analisando-a cuidadosamente para, em seguida, comê-las como se fossem a melhor das iguarias. Era uma dupla perfeita! Se a fila demorar muito, provavelmente o moleque perderá o apetite.

E depois, mais à frente, ela, em carne, osso e shortinho curto! "Tudo" se equilibrando charmosamente num altíssimo par de saltos plataforma que a deixava como se estivesse em exposição. A verdadeira altura da moça, porém, era provavelmente um segredo que só a intimidade revelaria, pensou otimista.

O Vicente aproveitando descaradamente a vantagem de observá-la sem ser observado, fazia praticamente uma auditoria à procura de detalhes que a desvendasse, ou, melhor ainda, que a incriminasse...

Então, vejamos... avaliando-a de longe nos mínimos detalhes. As pontas da camisa amarradas na cintura por um nó e o arranjo improvisado na cabeça com duas penas de pavão tentam dar um toque carnavalesco ao figurino.

Assim como a purpurina sutilmente borrifada no colo à mostra. Até que ficou interessante... Muito interessante! E para completar, com o evidente propósito de sedução... – isso no julgamento do Vicente – uma delicada corrente de ouro circundando o tornozelo direito. Cruel! Uhm, o que pensa uma mulher quando coloca uma correntinha no tornozelo? Quais suas intenções? Como resistir? Impossível! Deveria haver uma lei para isso... "Doutor, é tudo verdade, eu pulei e fiquei agarrado aos seus pés quando passou perto de mim, mas sou uma vítima... ela usava uma correntinha no tornozelo!", diria em sua defesa. "Então está liberado!", o absolveria o delegado que, afinal, como homem, certamente também tinha suas fraquezas.

Quem o viu primeiro na fila foi a pirralha, que finalmente havia parado de chorar. Pelo menos tecnicamente, já que não escorria mais lágrimas dos seus olhos, embora ainda improvisasse alguns gemidos de minuto em minuto. Uma "simpatia" a menina... Mostrou-lhe a língua assim que o avistou. O Vicente estava justamente devolvendo o "gesto" com uma careta quando foi reconhecido por quem realmente lhe interessava.

– Tudo bem? – cumprimentou-o com um sorriso divertido por pegá-lo no flagra

– Você não é o monstro pé grande que vive na neve?

– Eu mesmo, – respondeu animado – "... e o pé regula", pensou em complementar, mas felizmente sua autocensura vetou a piadinha!

– O Shrek aqui tava com vontade de comer pipoca! – disse apontando para o filho.

– Mas pai... eu não quero... – O Vicente não esperou o final da frase, interrompeu o Júnior com um discreto "pisão" no pé que significava "cale-se".

A verdade, porém, é que mesmo que falasse, nenhum dos dois ouviria. Ou se ouvisse, não prestaria atenção. Olhavam-se como se não houvesse mais ninguém ao redor. Ele com seu instinto caçador aguçado e ela fazendo de conta não perceber que era a presa. Mais uma vez foi o Vicente que tomou a iniciativa.

– Vem sempre aqui no baile infantil?

– Não – divertindo-se com a pergunta – só uma vez por ano, quando é carnaval.

– Eu também! Só quando é carnaval!

– Ôooo, mamãe – interrompeu a garotinha, apontando o dedo para o Júnior – por que o menino está verde? Ele comeu muito espinafre?

– Ai, ai ai... Júnior, Nããããããooooo! – tentou o Vicente sem sucesso, prevendo o inevitável. Mas o Júnior desta vez foi mais rápido que o pai, sacando seu spray certeiramente, não só cobrindo parcialmente o rosto da menina, como a fazendo literalmente engolir suas palavras.

– Vais ficar sem pipoca! – Disse o Vicente espumando de raiva, enquanto a moça tentava limpar o rosto da filha.

– Então agora posso comer cachorro-quente?

– Grrrrrrrrrrrrrrrrrrr

Nenhum dos dois pequenos ganhou pipoca, mas quem mais lamentou o ocorrido foram seus pais, que a contragosto seguiram novamente em direções opostas. O Vicente "conduzindo" o jovem Shrek pela orelha e a musa do seu carnaval tentando, mais uma vez, acalmar o choro histérico da filha, que, no momento, com seu vestidinho cor de rosa e coroa na cabeça, acrescida fartamente de espuma espalhada por todo o cabelo, estava mais para sundae de morango com cobertura de chantili do que exatamente para musa de "A Bela e a Fera".

*  *  *

A terceira vez que se falaram foi também a última. Em torno deles, no salão lotado, pequenas odaliscas, batmans, piratas-mirins e miniaturas de homem aranha se acotovelavam ao som de "minha eguinha pocotó" – Isso mesmo, os bailes infantis já não são mais os mesmos! – Esbarraram-se por acaso, ambos dançando, ela animadamente e ele longe disso... cada um entretendo sua cria.

Foi com alívio que o Vicente constatou que a menina se recuperara do "ataque da espuma assassina". Como não estava chorando, quase não a reconheceu quando a viu. O mesmo não se pode dizer em relação à mãe da criança que vinha logo atrás. Impossível não reconhecê-la...

Primeiro trocaram olhares, depois trocaram rápidos beijinhos na face, finalmente, tentaram trocar palavras, mas foram frustrados por um grito de guerra nos alto-falantes que não os deixou falar.

– "Hilari Hilari Hilari Ê...? – foi o chamado, num idioma desconhecido, que ecoou pelo salão conclamando o exército mirim a se manifestar. E foi o que aconteceu... Como se estivesse previamente combinado, a resposta foi imediata e numa só voz.

– Êee-Êee-Êee!

– Hilari Hilariêeeeee?

– Êee-Êee-Êee!

Como pequenos bárbaros prestes a desembarcar em Constantinopla, a pequena multidão respondia ao chamado que vinha de cima do palco pulando no lugar e sacudindo os braços! Era assustador! Não havia como... Impossível conversar. Nem mesmo permanecer no lugar conseguiam! Para "ajudar", um "trenzinho" de pais e filhos engatados pela cintura resolveu passar bem no meio dos dois, separando-os. Estavam se afastando novamente, sendo arrastados pela multidão de "pigmeus". Porém, antes de se despedirem pela última vez, aos gritos para serem ouvidos, ainda conseguiram combinar um novo encontro, no ano seguinte, no carnaval, no mesmo clube, no mesmo baile infantil.

Nenhum dos dois disse, mas, secretamente, ambos planejavam dessa próxima vez... virem sem os seus pimpolhos!

Baile infantil com as crianças? Nunca mais!


Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

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