A falência da poesia e do crítico moralizador [Ronald Augusto]

A falência da poesia e do crítico moralizador


Artigo publicado no Jornal Sul21 

por Ronald Augusto

Embora o exercício da crítica literária – que não é senão uma forma de fazer relações sígnicas e de interlocução parcial a partir de um objeto verbal construído seja sob que motivação social, individual ou metafísica, enfim, desde os contornos de uma objetividade em perspectiva ou, ainda, desde uma subjetividade tornada precisa: o poema mesmo, coesão fundo-forma–, enfim, embora essa crítica me interesse muito, sei que se trata de um texto segundo, subsidiário, uma forma discursiva circunscrita a margear os rastros da linguagem do poeta (se não soasse retrô eu poderia dizer genericamente “do artista”, envolvendo outros modos de expressão, mas esse comentário se restringe, infelizmente, às coisas da poesia). Talvez me acusem de reducionismo, mas, encurtando o caminho, prefiro concordar com a ideia de que a crítica é tão-só mais uma forma de paratexto, ou seja, no sentido em que, segundo Gérard Genette, “o ‘paratexto’ consiste em toda série de mensagens que acompanham e ajudam a explicar determinado texto – mensagens como anúncios, sobrecapa, títulos, subtítulos, introdução, resenhas, e assim por diante” (apud Umberto Eco). Anoto à margem: o paratexto ajuda tanto a explicar, como a enublar determinado texto ou evento.

Assim, não pretendo aqui dar corda à metacrítica, já que se levarmos a sério a crise de nervos da poesia contemporânea, devemos supor que a crítica que lhe segue embarcou em idêntica canoa que está a pique. Portanto, mesmo que o metapoema (crítico em relação ao poema-ele-mesmo) às vezes nos pareça intolerável por sua excessiva reflexividade, a metacrítica (que põe em causa a crítica-ela-mesma), dentro dessas condições e, talvez, a contragosto do nosso apetite, também tem a sua razão de ser. Mas, isto, desde que o herói que a coloca em movimento – o metacrítico – se aproxime da persona do moralista imaginado por Nietzsche, isto é, o sujeito (o crítico literário) que entende a moral (os critérios estáveis da qualidade literária) como algo a ser interrogado, um problema, algo que pode ser posto em questão. Para nós, o moralizar tout court (o esforço do analista fiel à Literatura, sim, com maiúscula) soaria imoral; um índice de sua falência intelectual. De outra parte, entendo que ao falar mais uma vez, ainda que lateralmente, a propósito de alguns dos dilemas da poesia de agora-agora, não será estranho que a crítica receba por contiguidade aquilo que ela merece.

A remissão algo nostálgica a um “senso crítico” e ao “arsenal de qualidades que ele exige”, bem como postular a “importante reverberação social” provocada pela atividade crítica quando exercida nesses moldes paradigmáticos já perdidos no tempo, enfim, essa crítica que “ajuda a fundar civilizações” pode ser interessante, mas, por enquanto, não é possível. Alguém acrescentará que a crítica não tem a menor obrigação de ser interessante. Certo, a crítica pode prescindir dessa obrigação, mas não de outras hipóteses de leitura, onde estão implicadas, inclusive, as condições culturais do presente. Qual a crítica possível a ser oferecida diante de um presumido panorama de irrelevância? Há pouco, podia-se defender a ideia de que o leitor moderno estaria aferrado a um estado, não digo racional, mas, no mínimo, vigilante relativamente – ou em resposta – a uma “entrega incondicional” que se lhe cobrava durante o ato de leitura. Não obstante o conceito de leitura de prazer, o leitor (da alta literatura?) confinaria com o especialista e não passaria de um árduo degustador dos melhores ou piores vinhos: estaria apto a enfrentar qualquer desafio. Nas mãos deste sujeito cultivado, amante da beleza difícil, as supostas tortuosidades da poesia seriam superestimadas de maneira a fazer mais impressionantes suas qualidades intelectuais e sua hiperestesia. Esse leitor decisivo teria condições de mimetizar os ademanes do crítico. Uma sorte de mentor e guia na selva selvagem da escritura criativa.

Mas esse leitor-modelo, escada do poeta-crítico, cuja raridade prefigura a sua extinção, não passa de uma metáfora acadêmica. A literatura, hoje, quer se apresente na web, quer se fixe no suporte tradicional do livro, não suporta mais uma leitura lenta e sobrecarregada com as resistências desse leitor difícil e refinado. Resta-nos essa literatura varejista à caça de leitores-seguidores, mas que prescinde da releitura com desdém soberano. A capacidade de fazer relações críticas, de pôr as coisas em relação, no entanto – se leitores, poetas e críticos ainda a possuem –, se esgarça com rapidez à medida que subsome ante essa pastosa recepção temperada com a acídia menos burra do que traiçoeira. E todos, no trato e no traquejo com esse acervo de textos imperitos (inclusive com alguns que talvez sejam de sua própria lavra), percebem que tal capacidade já se perde por entre os seus dedos. O ambiente já não faz questão deste tipo de intervenção problematizadora. Na verdade, o fato de não possuí-la lhes infunde até um fustigante alívio, pois se sentirão incompetentes, impedidos de emitir qualquer consideração sobre o valor destas obras suportadas pelo publicitário de plantão.

Quando a análise sai de cena o que ocupa o seu lugar? Neste momento em que também a crítica se apresenta irrelevante, pois a carta de alforria segundo a qual “praticamente não há mais maus escritores, tampouco escritores geniais” (graças a uma série de “fatores virtuosos” tais como, entre outros, a democratização da cultura, os blogs literários, o aquecimento econômico, as pequenas editoras) transforma em anacronismo o debate que tenta colocar a produção presente numa perspectiva crítica.  A mera publicação de um livro por uma editora competente na publicidade do seu produto confere ao autor a condição de vencedor. E isso já é o bastante para que a seguir, perante a opinião do sistema, a obra justifique sua aparição ou consiga dar alguma satisfação no que concerne à qualidade artística ou literária de que certamente carece, pois do contrário dispensaria a publicidade indecorosa. De outra parte, quanto mais poderosa é a casa editorial do escritor, menores são as chances de que qualquer crítica que venha à tona não seja tachada de revanchista ou invejosa. Parece não haver argumentos pertinentes — e sequer impertinentes — contra o fait accompli dessa consagração meramente editorial (resultante da publicação, às vezes, de duas ou três obras de péssimo nível) com que se tenta calar uma análise crítica possível.

Se até há pouco tempo a condição marginal da poesia, relativamente ao prestígio gozado por outras formas de linguagem no âmbito do embate cultural, obrigava o poeta a assumir uma postura de maior autonomia crítica que, por sua vez, envolvia também maior coragem intelectual e um ouvido sempre atento aos transes da diferença e da fragmentação do verdadeiro, agora, essa situação de patinho feio desencadeou no ânimo dos envolvidos (pobres vítimas) uma reação histérica cujo efeito gerou um sistema de autoproteção, uma reserva de mercado branca (ou nem tanto), light, porque parece ser “do bem”, pois se trata de preservar a poesia, já que, para todos os efeitos, o poeta “não se vende”. Os prosadores, ao menos, não inventam a sua relevância, delegam às editoras a prática dessa impostura. Os poetas, por sua vez, numa espécie de retranca mistificadora e endogâmica (reedição da sua sempiterna subalternidade junto à “república do poder”), alardeiam a excelência da própria produção tendo em vista a conquista de uma posição de influência dentro do sistema literário, ou o reconhecimento circunstante acompanhado das benesses de praxe, usando para tais fins os meios lícitos e ilícitos disponíveis. Toda essa competência poeticamente correta de que se ufanam – que, de resto, mal-esconde a mediocridade que os constitui, pois se comprazem na autopromoção e no elogio mútuo, reificando um desaprender na repetição, mas cum laude - é agenciada dentro dos estritos limites do contemporaneamente tolerável, onde “escolhas afetivas” são rebaixadas a essas formas edulcoradas e cínicas de comportamento próprias das “redes sociais”. Tudo é só curtição. Seus interesses coincidem com suas crenças.

Ao contrário de alguns blogueiros e resenhistas do amiguismo que preferem manter silêncio sobre livros que não possam elogiar, entendo que a crítica é um gesto de comunicação, portanto, é um evento em que o leitor está necessariamente implicado. O leitor fecha, ou abre, dependendo do ponto de partida, o circuito dialógico. E o leitor (mesmo o mais ingênuo, raivoso ou chato) tem bastante a ver com o processo da significação, na medida em que, por dever do ofício, a recepção até pode ser transformadora. À liberdade de criação do autor, podemos propor uma equivalente liberdade de leitura crítico-seletiva que inere ao desejo de linguagem do leitor. A crítica não é senão um exercício de leitura. Uma leitura possível. O fracasso embutido no estilo da revanche.

Ronald Augusto nasceu em 1961 no estado do Rio Grande do Sul. O escritor atua em inúmeras áreas: é músico, letrista, ensaísta e possui ainda um trabalho significativo no âmbito da literatura. Como poeta alcançou expressividade no cenário nacional e até mesmo mundial, de tal forma que suas produções foram publicados em revistas literárias, bem como em antologias, dentre elas destacamos: A razão da Chama, organizada por Oswaldo de Camargo (1986), a revista americana Callaloo: African Brasilian Literature: a special issue EUA (1995), a revista alemã Dichtungsring Zeitschrift für Literatur, e outras.


1 comentários:

Adriana Versus disse...

Um texto muito bem escrito, mas muito cansativo...A poesia contemporânea muito boa, estamos precisando é de apoio.