O Vestido Preto [Selma Pereira de Sousa e Wuldson Marcelo]

O Vestido Preto


O fato que narro a seguir pode ser considerado banal, carregando, com certeza, todos os aspectos das histórias comuns. Infelizmente, tão antiga quanto a história da humanidade. Porém, atual, já que se repete, perpetuando o horror de ser humano. Para uns, os mais indiferentes, esses relatos soam como repetição de um cotidiano que não pertence a eles. Àqueles que gostam das tragédias urbanas, que jornais e TVs não cansam de repetir, eis mais uma preliminar fatídica para um infortúnio coletivo, que, esquecido, logo vira estatística, e se torna mais um número de um processo arquivado. Contudo, o destino, caso exista, esboçou um final diferente para o relato que me proponho compartilhar. Digo logo que não conheci os envolvidos no ápice dos acontecimentos. O que sabia deles chegou-me pelos mesmos jornais e programas de TV que fazem da vida alheia material para o sensacionalismo e contribuem para acelerar a miséria espiritual que nos atinge como “balas perdidas”. Isso até o dia em que uma mulher disse-me que, nos anos 80 do século passado, sobreviveu ao inferno dos amores coléricos.

Carmen olhou-se longamente no espelho. O rosto, de 33 anos, ainda era belo. A pele trigueira carregava intacta (protegida em uma redoma de vidro) os sonhos que ousou sonhar na juventude. Os olhos castanhos, o nariz adunco e a boca “semicarnuda” completavam o espetáculo de uma beleza particular.  Pouco dessa beleza havia se esvaído com as noites mal dormidas, seja pela gestação dos três filhos, pela insônia caprichosa e cruel ou pelas surras que o ex-marido lhe dava com certa regularidade, durante os vinte anos de união conjugal. O vestido preto, de alças de correntinhas douradas, que experimentava pela primeira vez, cobria as partes do corpo que traziam as marcas da violência do homem que dizia amá-la (a maior marca estava na cabeça. Ferimento feito com o cabo de uma enxada). O vestido era, para a mulher que o sentia no corpo, símbolo de libertação e confirmação de independência. Ela sorriu, um tanto sem jeito, para si mesma. Um sorriso de orgulho envergonhado, que imaginou sair triunfante, já que prometera nunca mais pedir um centavo ao pai dos seus filhos. O que ainda tinha sobrado, o que viera dele, gastou no vestido, sem vacilo ou arrependimento. Separados, mas morando juntos pelo “bem das crianças”, ambos mal se comunicavam. Vinte anos de agressões físicas e incompreensão destruíram o amor que outrora Carmen sentiu por ele. E hoje, diante daquela situação que misturava conveniência, medo do rompimento definitivo (o futuro das crianças) e apelos de terceiros pela manutenção do matrimônio (ou pela aparência de um lar não-desfeito), era-lhe impossível afirmar que um dia o tenha realmente amado.

Eles se conheceram quando ela tinha 12 anos. O ex-marido, nessa época, já contava 20 anos de existência. Aos treze, ele a convenceu a fugir, a modo de viver aquela paixão de arrepiar a pele (segundo palavras dele). Um ano depois nasceu Antônio, inaugurando a rotina de ter um filho por ano. Assim vieram ao mundo, Carlos e Cecilia. Três anos de casamento e três filhos.

“Vestido lindo”, ela pensou. “E até tem decote igual ao das atrizes de novela”, concluiu.

O ex-marido aceitou calmamente o fim do casamento. Não levantou a mão para a mulher numa tentativa de intimidá-la, coagi-la da pretensão de terminar com aquela união que fazia mal a todos na casa. Mesmo quando Carmen, num delírio que somente quem temeu dizer a verdade por muito tempo, é capaz de demonstrar, gritou:  “Eu já não te amo”; “Nunca te amei. Fugi com você para fugir do meu pai e da minha mãe. E permaneci te aguentando a vida inteira por causa das crianças. Mas agora que cresceram, quero que você vá para o inferno”. E cuspiu na cara dele, com todo o nojo acumulado durante os anos em que ele, logo após cada surra, a possuía com violência, que só acabava quando ejaculava, daí saía de cima dela e a deixava lá, na cama, em lágrimas, nutrindo um ódio dele. Um ódio trancafiado como um animal selvagem. Após a sessão de dominação brutal, Carmen se levantava, ia para o banheiro e tomava cinco banhos para se sentir limpa. Toda vez que ele vinha da fazenda era assim. Chegava trazendo o odor do suplício anunciado: estrume de vaca, suor e cachaça, que era fabricada na fazenda mesma, que ele dizia tomar para respirar melhor a poeira e a solidão da estrada. Ela pensava no caminho que ele fazia, suas andanças e trabalho, e rezava para que o marido fosse picado por uma cobra ou ferido mortalmente pelos chifres de um boi. Em seguida, pedia perdão, desesperada, rogando para que Deus, Virgem Maria, todos os santos e anjos não a punissem pelos seus maus pensamentos. E, então, se instalava sempre em seu coração uma teimosa preocupação, mas dolorosamente real: e se algo de ruim acontecesse ao marido, o que seria dela com as crianças? Depois voltava a mente a lembrança das violências física e psicológica constantes. A mais marcante ocorreu quando ainda moravam na fazenda. Carmen, grávida da última criança. O marido sentindo-se desprezado e reclamando da falta de sexo, disse-lhe, sem cerimônia alguma, que sairia naquela noite em busca de uma mulher “gostosa de verdade”, já que ela, além de estar parecendo um “botijão de gás”, tinha se tornado um verdadeiro “arroz sem sal com feijão cru”. E a obrigou a andar uns 100 metros até a porteira, para que ele pudesse sair com o cavalo. Carmen, no sétimo mês de gestação, a pé, sentindo o cansaço da caminhada, abriu o portão de entrada imaginando que o mesmo era um portal mágico que conduziria o marido para os “quintos do inferno”. De repente, a menina de 15 anos sofreu um chute nas costas e desabou, ferindo as mãos e os joelhos, viu o galope ligeiro do alazão que levava o homem que de príncipe tornara-se carrasco. Ao se levantar, percebeu que a bolsa havia estourado. Ela andou, entre passos rápido e cuidadosos, até à casa, e ao ver o filho de dois anos brincando e o outro, que ainda não completara um ano, dormindo, segurou as lágrimas e preparou-se para ter o terceiro filho sozinha, sem assistência alguma. Porém, Rosa, sua vizinha, ao ouvir o grito que a garota soltara na queda provocada pelo pontapé do homem truculento que residia ao lado, foi verificar se estava tudo bem e acabou auxiliando-a no parto da pequena fêmea, que vinha ao mundo prematuramente, mas muito amada, para que a brutalidade não vencesse daquela vez. Desejou muito esquecer aquele dia, porém não o conseguiu apagar da memória.

Hoje, solteira, as suas preocupações não tinham mais a ver com o destino do marido. Era uma mulher separada, pronta para refazer a vida. “E ele nem ligou muito. Engraçado! Deve ser porque ele não me ama mais”. Após a reflexão, limpou uma teimosa lágrima que caiu antes da constatação de tristeza pelo sonho de “felizes para sempre” que fora rompido entre tapas e humilhações, e pensou que assim era melhor, pois agora estava livre e poderia ficar com quem quisesse e ir a bailes e se arranjar com o primeiro que a chamasse para dançar. E rindo para si mesma pensou, Se ele disser, ‘Você dança, morena linda?’ Responderei, ‘Até faço amor’”. Agora ela era tão livre que poderia se dar ao luxo de ser fácil, se assim desejasse. E isso lhe pareceu engraçado.

Engraçado mesmo foi o dia do fim do casamento. O ex-marido nem dissera nada depois da explosão dela. Apenas a fitou longamente com seus olhos verdes de “vidro”. E ela viu que feio ele não era, pois os cabelos louros salpicados de branco imprimiam charme ao rosto severo, sua boca, um pouco fina, continuava bonita, e escondiam bem os dentes amarelados pelo café, pelo fumo que mascava e pela pinga de alambique que adorava. No momento do “acabou!”, ele não pronunciou uma palavra.  Somente a deixara na sala e foi para fora da casa. E a mulher, tomada pelo alívio e pela incompreensão, sentou-se no sofá, que foi o último presente dele dado à ela, justamente no dia de seu aniversário. Sem saber bem o que fazer, Carmen deu uma boa olhada para a casa, notou que, com certo orgulho, era simples, mas bem-arrumada e limpa. Realmente não lhe faltava nada, dentro do possível e dos limites financeiros, no que diz respeito aos bens materiais. Mas dois fatores eram essenciais para ela: amor e respeito, vividos de modo sadio, sem opressão. Assim justificaria sua decisão para quem tentasse dissuadi-la da mudança de vida. Na verdade, não se importava com o suposto conforto, já que tinha certeza que viver na rua era melhor que viver apanhando. A liberdade e a sua consequência, a felicidade que tanto almejava, não tinham preço. Afinal, nunca teve medo do trabalho, então não passaria fome. O ex-marido ainda colocaria dinheiro na casa para sustentar os filhos. Por pouco tempo, é certo, já que eram quase adultos. Apenas Cecília poderia ser chamada de menor de idade. E por isso se libertara: os filhos estavam grandes, encaminhando a vida.

Logo ela estaria sozinha? Talvez. E se não arrumasse nem um outro homem, tudo bem! Afinal não era gêmea siamesa de homem nenhum. E, olhando-se mais uma vez no espelho, se achou linda, ainda mais com o vestido preto de estrela de cinema. Pensou estar deslumbrante. E imaginou que agora teria noção de seus reais encantos.

A indiferença do marido, após a revelação dela, permanecia um mistério. O máximo que fez no dia foi brigar com os cães que uivavam feitos loucos para a sinfonia dos gatos vira-latas que tomavam as ruas do bairro. Porém, no dia seguinte, ele propôs: “E as crianças, Carmen? Você não pensa nelas mais. Nem em mim, nem nos cachorros ou na casa. Se você me odeia tanto, a ponto de matar o amor que sentia, tá bom! A gente larga, mas você fica morando aqui com os meninos e os bichos, e eu caço meu rumo. Mas não será hoje. Preciso de um mês até acabar as férias, daí volto pro mato e neste tempo não toco um dedo em você”. Carmen aceitou a proposta, já que demoraria um tempo para arranjar trabalho e até lá tinha que comer e alimentar os filhos. Contudo, ela foi categórica, “Durmo na minha cama e você no quarto das visitas”. O ex-marido concordou com a exigência dela.

Carmen conseguiu arrumar emprego na creche, como ajudante de serviços gerais, por intermédio de Rosa, que também viera para cidade (em busca de uma vida melhor e, assim pensava, para ficar com a jovenzinha que não tinha ninguém para cuidar dela). Carmen começou a labuta em uma terça-feira, já que o dia anterior foi de entrevista e conhecimento dos detalhes do serviço. E, no dia em que começou a trabalhar, ela se matriculou no Mobral, pois após a fuga e o nascimento das crianças nunca pode ter tempo para os estudos. Lembrou-se do dia em foi registrar uma das crianças, e a funcionária do cartório lhe perguntou o seu estado civil, Carmen respondeu, sem hesitar, “Sou fugida”. A mulher se pôs a rir e, em seguida, a aconselhou, “Dona, matricule-se no Mobral, vá estudar”. Ficara com aquilo na cabeça e agora poderia estudar, sem pai ou marido para lhe trancar as portas do conhecimento.

Duas semanas depois do fim do casamento, iria, enfim, sair para descobrir o que a noite tinha de fascinante. Até chegou a ter dúvidas se deveria aceitar o convite das colegas de trabalho para ir a um baile que aconteceria no centro comunitário, mas incentivada pelos filhos, que afirmaram que ela deveria viver a própria vida, Carmen se enfeitou toda e colocou o vestido preto que comprara com suas modestas economias (provenientes de trocos e centavos que o ex-marido permitiu à ela embolsar após as compras mensais no supermercado), já que em breve receberia o primeiro salário, se deu o direito a uma pequena extravagância. Examinou-se mais uma vez no espelho, admirando com êxtase o vestido preto. Finalizou a produção passando nos lábios um batom vermelho, que combinou com a bolsa e os sapatos, que irradiavam um vermelho que gritava “Sou livre!”. Não tinha conhecimento por onde andava o pai de seus filhos. Os adolescentes dormiam, logo após assistirem o Supercine. E Carmen foi para o baile às 23 horas da noite. Se fosse nas semanas anteriores, estaria sob os lençóis imaginando uma vida diferente.

O baile não era longe de casa. Em muitas cidades pequenas, a distância separa-se da emoção por poucos minutos de caminhada ou pela velocidade do carro. No baile, Carmen se viu feliz ao lado das colegas de trabalho. Foi ao banheiro, retocou o batom e depois convites para dançar não lhe faltaram. Dançou até fazer bolhas nos pés. Por fim, na hora de embora, deu o braço para o rapaz que ela considerou o mais bonito da festa, que sugeriu levá-la em casa. Eram três da manhã. Na rua beijaram-se e ela sentiu a excitação que nunca conhecera na vida. Adorou a sensação, mas se recusaria a fazer sexo com o rapaz, pois pensou “Sou mulher direita. Não vou fazer isso no primeiro encontro”. Quando caminhava de braços dados com o jovem pelas ruas do bairro, ouviu o barulho de um transformador de energia de um poste, próximo a sua casa, que começou a lançar pequenas faíscas. E, de repente, uma voz ganhou a noite, “Sua vagabunda! Você não presta mesmo. Você vai morrer”. Era o ex-marido, que, transtornado, intensificou a ira conhecida por ela durante os anos de surra. Carmen sentiu um frio no espinhaço quando viu o 38 na mão dele, e teve a certeza que tudo acabaria ali. Notou a mão do outro fugir da sua e a boca, que antes lhe proferia belas palavras, gritar “Por favor, não me mate. Eu pensei que se tratasse de uma vadia qualquer”. Na madrugada de um sábado, feita para o respiro e liturgia de salvação de uma ex-dona de casa, ouviu-se dois disparos e, em seguida, a voz de um homem que, diante de um corpo de um outro homem, que tombara em um chão de terra batida, pronunciava com ódio, “Bacana fracote, vai xingar a mulher dos outros no inferno”. Depois, virando-se e dirigindo seu ódio para Carmen, disse, “E você, sua puta, como pôde deitar os meninos em casa e ir pro baile caçar macho? Como pôde me deixar? Eu que matei sua fome durante vinte anos? Nunca lhe deixei faltar nada. Seu lugar é no cemitério”. Carmen tentou argumentar, “Não me mate, João. Eu quero viver, estudar, ser feliz”. De repente, o silêncio. E depois, o estrondo. O transformador explodira. João, pela primeira vez na vida, pareceu levar susto com as surpresas da vida, pois abaixou o revólver e olhou para o local da explosão. E em fração de segundos, a rua recebeu um público atônito, que ouviu os disparos e a explosão, e tomou as ruas, curioso e presenciando um triste espetáculo da vida. João, confuso, olhou para a ex-mulher que, firme no mesmo lugar, não correu à procura de abrigo, e por mais que deixasse escorrer lágrimas dos olhos, parecia dona de si, o encarando, sem temor e em desafio. O homem então se virou e a mirou, lhe desferindo um tiro no peito. Carmen caiu, como se morta estivesse, cessou a respiração e nem sequer um leve tremor tomou o seu corpo. João, depois de tanto furor, e talvez querendo acreditar que se punia por matar sua bela morena Carmen, ou para completar a sua vingança atirou na própria cabeça. A vizinhança venceu o medo e o horror das cenas e avançou em direção à tragédia. O 38 abandonado ao lado do corpo testemunhou a hora que João morreu.  Os moradores mal acreditavam naquilo que assistiram. Alguns, no auge da sanha por justiça, ensaiaram o desejo de linchar o morto. Carmen, então, deu um esguicho e um pouco de sangue se projetou da sua boca, sujando os pés e as pernas dos curiosos mais mórbidos ou mortificados que se aproximaram do corpo dela. Ela estava viva. Quinze minutos depois, uma ambulância a levava para o Pronto-Socorro. Cecília acompanhou a mãe. Enquanto Antônio e Carlos permaneceram por bons minutos diante do corpo do pai, chorando o fim de um pesadelo e o início de uma nova dor.

Trinta minutos, os quatro policiais militares que atenderam a ocorrência colhiam depoimentos da vizinhança, que especulava sobre o motivo da tragédia. Os jornais e os programas policiais da TV falavam sobre “a dama que levou um bom trabalhador à loucura”. Vítima para alguns e culpada para outros, conforme o juízo de quem se dispusesse a julgar.

Carmen, depois de superar a catástrofe que deixou inúmeras marcas em sua vida, começou a trabalhar para conscientizar mulheres a não repetir o seu calvário, a não sofrerem caladas.  E defendeu incisivamente que tais comportamentos não ocorrem por causa do amor, mas da obsessão, da insegurança e de um sentimento de posse.

E assim, Carmen passou pelos anos 80, viu os 90, comemorou a virada do século, chegando aos 2000, com filhos bem-sucedidos e outros vestidos pretos, que contaram novas histórias de amor e frustação, porém com a fibra e independência que aprendeu a ter em mãos. Horas depois, a sobrevivente encerrou o seu relato, olhou-me nos olhos e sorriu, preparando para mais um dia de luta.

Selma Pereira de Sousa. Natural de Paranatinga-MT, é bacharel em Geografia pela UFMT. Divorciada e mãe, residente em Cuiabá-MT desde 2000, considera o amor fermento para a vida, porém inaceitável qualquer tipo de violência contra a mulher.

Wuldson Marcelo é mestre em Estudos de Cultura Contemporânea e graduado em Filosofia (ambos pela UFMT). Autor do livro de contos “Subterfúgios Urbanos” (Editora Multifoco, 2013) e um dos organizadores da coletânea “Beatniks, malditos e marginais em Cuiabá: literatura na Cidade Verde” (Editora Multifoco, 2013).

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