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Quem ama tem um quê de guarda-costas [Ricardo Coiro]

Quem ama tem um quê de guarda-costas


Hoje de manhã – diferente das primeiras vezes em que a levei até o lar dela – eu só consegui me sentir aliviado depois de tê-la visto fechar, em total segurança, o portão que separa o Edifício Arminda da parte pública – e supostamente mais perigosa – do mundo. Após o beijo de “tchau” e antes que ela tivesse tempo para sair do meu carro, eu fiz a varredura visual dos poucos metros que a separavam da porta para a qual ela estava prestes a se dirigir – exatamente como faz um guarda-costas profissional. E, felizmente, não identifiquei elementos suspeitos ou possíveis ameaças àquela que amo. Mas continuei de olhos arregalados, atento aos mínimos passos dela e pronto para entrar em ação caso algum meliante, tarado, cão raivoso, abelha teleguiada, barata voadora ou camelô insistente resolvesse ameaçá-la. Mas nada ocorreu. Ela apenas fechou o portão de ferro, virou-se para mim e acenou sem fazer alarde ou descolar o cotovelo do corpo; e, assim que a luz do farol ficou verde, pude perceber que ela fitou o meu carro até onde a miopia dela permitiu.

E se está me achando um baita de um exagerado graças ao que descrevi no parágrafo acima, você, caro leitor, certamente não ama ninguém e, obviamente, nunca amou. Porque o amor, irmão, sempre nos torna seres zelosos e extremamente preocupados com o bem-estar daquele (a) que amamos.

E o meu zelo pela moça que amo não se limita às vezes em que a deixo em frente ao prédio no qual ela mora; meu cuidado vai muito além: quando estamos em um show, por exemplo, muitas vezes, ao invés de olhar para o palco, eu permaneço atento aos potenciais focos de confusão. E sabe por que eu faço isso? Não faço por mim, óbvio! E sim para aumentar as chances de conseguir protegê-la caso comece um corre-corre ou um quebra-pau.

E quando ela engasga (não pensem besteira!) então? Tirando o uso do vocativo “bem”, que me parece um pouco antiquado, eu digo as mesmas palavras (“Beba água, bem! Passou? Beba mais! Passou? Erga os braços! Passou?”) que a minha avó diz ao meu vô que – mesmo depois de anos de treino – ainda insiste em engasgar em todas as refeições.

E nas vezes em que ela, antes de rumar ao trabalho, beija-me a testa e pisa manso para não me acordar, por amor e só por ele, eu sempre consigo arrumar forças para abrir as pálpebras e analisar se ela está bem agasalhada e com os cabelos secos. E se ela por acaso estiver com a vasta cabeleira úmida, com a voz embriagada de quem está sonado por ter ficado dentro do Netflix até altas da madruga, eu invento: “O secador de cabelo não atrapalha o meu sono, cabeção!”. E tento, sempre em vão, voltar ao mesmo sonho. Ou fugir do velho pesado.

É, pensando bem, talvez eu seja demasiadamente zeloso. Mas, e daí? Se leio as contraindicações dos remédios que os doutores apressados a mandam tomar, é por amá-la a ponto de não querer vê-la, em hipótese alguma, sentindo qualquer efeito colateral ruim. Se displicentemente entrego o meu peito, de bandeja, ao vento gelado da madrugada, é por não suportar vê-la tremendo de frio. E se fico triste a cada vez em que a ouço dizer que está sem saco para se cuidar, é, com certeza, por saber que muito depende também dela.

Se quando a gente gosta é claro que a gente cuida – como bem diz a música Sozinho – fica bem fácil de imaginar (mas impossível de medir!) o tamanho do zelo de quem ama.

Fonte:


Ricardo Coiro 
Vive entre o soco e o sopro. Morre de medo do morno e odeia caminhar em cima do muro. Acha que sensibilidade é coisa de macho e que estupidez é atitude de frouxo. Nunca recusou um temaki ou um café. Peca todo dia. Autor do livro Confissões de um Cafamântico.

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