Meus amigos líquidos [Letícia Gil]

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Meus amigos líquidos

Com quase 1,5 bilhão de usuários em todo mundo, o Facebook se consolida como a maior comunidade virtual já existente. Ela abre janelas para estranhos, possibilitando interações que, muitas vezes, não aconteceriam fora da internet. Mas faça um balanço: você realmente conhece os frequentadores da sua página? Interage com todos que estão lá? Acha que vale a pena adicionar desconhecidos?


Há diversos lugares convidativos para uma conversa descontraída. A mesa de um bar, a praia ou um gramado são apenas algumas das opções. Mas Aline e Marcio optaram por um local bem menos aberto. No caso deles, a “comunidade” que os une permite que eles se comuniquem sem sair de casa. O contato, há um ano e meio, é por meio de mensagens privadas no Facebook. Ela é professora e mora no município de Rio das Ostras. Ele é conferente em uma transportadora, em Macaé, conhecida como a ‘Cidade do Petróleo’. Eles vivem em municípios vizinhos, ambos no Estado do Rio de Janeiro, mas nunca cruzaram a divisa para ficar frente a frente. E não há outros planos. Por enquanto, a rede social é o único ponto de encontro.

A empresa do norte-americano Mark Zuckerberg se transformou na maior comunidade virtual do planeta. Até a última conta, o site abrigava 1,34 bilhão de usuários no mundo todo. No Brasil, são 89 milhões de conectados. Assim como o Facebook, as redes sociais diferem das mídias tradicionais pela possibilidade de interação e do compartilhamento de informações, vídeos, fotos e de outros interesses entre os usuários. Elas contribuem com a quebra de barreiras de tempo e espaço, possibilitando interações, e, inclusive, abrindo janelas entre estranhos. Mas aí está a questão: essa amizade social pode mesmo ser chamada de comunidade? Você, por exemplo, conhece todos os frequentadores de sua página? E já aceitou uma “amizade” online ao seguir a indicação do site, mesmo sem saber quem a pessoa era?

RELAÇÕES LIMITADAS

Em 1992, o cientista britânico Robin Dunbar analisou a parte pensante do cérebro dos primatas para estudar as relações sociais. A teoria do cientista, conhecida como ‘número de Dunbar’, mostra que o ser humano só consegue se relacionar com 150 amigos.

Outra questão ligada à mente humana é apresentada pela coordenadora de Neuropsicologia da UFRJ, Cristina Wigg. A psicóloga chama a atenção para uma nova percepção de mundo imposta pelo Facebook: a importância das experiências fora do ambiente virtual a partir do momento em que o cérebro capta as informações por meio do que vemos, ouvimos, falamos, tocamos e sentimos. “Com as redes sociais, nosso cérebro constrói uma realidade virtual que nem sempre representa o real, e isso pode ser devastador ao longo dos anos, não só no que diz respeito às relações de amizade, mas ao que nos tornaremos como indivíduos e seres pensantes.”

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A jornalista Pollyana Ferrari, autora dos livros A força da mídia social e No tempo das telas, recorre a um dos pensadores mais respeitados da atualidade: “Como diz Bauman, tudo é líquido; sólido é um conceito que anda em xeque no Facebook”. Ela se refere ao livro Amor líquido, no qual o sociólogo Zygmunt Bauman caracteriza a liquidez como a superficialidade das relações modernas – em que nada dura – em consequência da globalização e dos impactos das tecnologias de informação. “Toda essa facilidade nos coloca na chamada ‘zona de conforto’, que nos dá a falsa impressão de que estamos protegidos. Já saí várias vezes do Facebook e volto porque, como educadora, às vezes, é o único contato a que os alunos respondem.” A autora ainda observa que “a maior rede do mundo perdeu o estranhamento; não existe mais ficar à deriva, fundamental no ciberespaço; apenas olha-se no espelho da espetacularização, pelo menos por enquanto. E quando apenas nos olhamos no espelho, não dialogamos, falamos sozinhos”, comenta.

“A rede social traz uma armadura. É como se falasse não com a própria pessoa, mas como se eu estivesse falando com a minha fantasia, com um espelho meu, mas com um espelho que tivesse certa autonomia, um sujeito que me falasse umas coisas diferentes e não só a repetição do que estou falando”, explica o psicólogo Antônio Carlos Júnior, que mergulhou no mundo do Facebook e de outras redes sociais para elaborar uma pesquisa sobre o comportamento dos desempregados na época das mídias sociais.

Um conceito ajuda a compreender a distorção das emoções e da superficialidade no mundo virtual. “Os relacionamentos na internet se tornaram mais superficiais não por causa da internet, mas por conta de outro fenômeno que chamamos de personalidade eletrônica. São características exibidas sempre que tenho uma relação virtual: o indivíduo é mais solto, é mais liberal, é menos moralista, é mais insubordinado; características que começam a fazer parte dessa relação e, portanto, criam uma relação diferente, e, talvez, a falta de cuidado seja um dos elementos mais comuns”, alerta Cristiano Nabuco de Abreu, psicólogo e coordenador do grupo de dependência tecnológica do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Além do rebaixamento do grau de censura, a sensação de anonimato também colabora para o florescimento dessas relações, conforme observa a psicóloga Rosa Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC de São Paulo. “Em que medida o uso que estou fazendo está enriquecendo a minha vida presencial ou empobrecendo? Está trazendo benefícios ou me limitando? Seria uma análise essencial que cada um deveria fazer”, recomenda a psicóloga.

No fim do século 20, o francês Pierre Lévy – um dos grandes pensadores contemporâneos da cultura cibernética – já alertava “que o sofrimento de submeter-se à virtualização sem compreendê-la é uma das principais causas da loucura e da violência do nosso tempo”. No livro O que é o virtual?, ele explica que o  virtual existe em potencial, mas lhe falta a existência, portanto, é real, mas não atual.

As complicações diante de uma comunidade digital integram o mundo. No ano passado, 300 usuários que enfrentaram problemas nos contatos virtuais pediram ajuda ao grupo de orientação psicológica do Núcleo de Pesquisas da Psicologia em Informática da PUC- SP. “Há uma grande necessidade de orientação por parte das pessoas de como se situar nesse ambiente novo, que ao mesmo tempo é muito fascinante”, diz Rosa Farah, a coordenadora do núcleo.

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