Ele morreu… [Jean Marcel]

Ele morreu…

Aqui em casa são sete splits… Um exagero herdado quando comprei a casa. Pois semana passada foi pifar justo o do meu quarto. O diagnóstico do técnico, dito sem o menor cuidado, me deixou completamente sem chão: – Doutor, ele morreu! – Vendo minha expressão de espanto, que clamava por uma explicação, o homem tentou me consolar: – Acontece! Foi o compressor… – disse, fingindo pesar. – É o coração do aparelho… – justificou. Eu, achando que ele teria ainda muitos anos de vida, fiquei me perguntando como algo assim podia acontecer sem nem um sinal prévio… E ele nem era tão velho assim…, pensei. Teve uma vez que escutei um gemido seguido de uma tremedeira… Lembro que corri e coloquei a mão na aleta e de como me tranquilizei ao ver que ainda saia um ar silencioso e gelado… Agora, me senti culpado por tê-lo feito trabalhar sem descanso e com força máxima o verão inteiro. Pois é, mas a vida segue para os que ficam. A fila tinha que andar… O rei está morto? viva o novo rei! Antes mesmo de me desfazer da carcaça, comecei a conjecturar quem seria seu substituto. Pensei em procurar no tinder, mas não queria nada efêmero… Meu bolso não suportaria um novo baque! Assim, acabei no Buscapé investigando quem eu traria para minha casa… Pro meu quarto… Pra me proporcionar noites prazerosas… Impressionado com tantas marcas e opções, acabei adquirindo um modelo mega, ultra, top, plus… Fiz questão de funções que até então eu nem sabia que existia: inverter, vírus doctor, filtro full HD, soft dry e sleep. Além, é claro, de subir, por precaução, a quantidade de BTUS…

Um pouco mais pobre, mas aliviado, só faltava marcar a instalação. Não sei o que me deixou mais atordoado, se o preço do “servicinho” (será culpa da Dilma ou do FHC?) ou a única data disponível… “- Amigo, como vou sobreviver uma semana sem ar-condicionado?”, implorei em vão.

O primeiro impulso foi dormir no sofá da sala ou em cima da mesa do escritório, mas, confesso, não tenho mais idade pra acampamentos tão longos… A solução foi um ventilador ao lado da cama, com a função “tomara que volte” travada para que ele jogasse o ar quente direto em mim e sem interrupção. Que porcaria de solução! Dizer que acordei suado e mal humorado seria mentira, pois nem consegui dormir. Despejei toda minha ira no aparelho que tempos atrás adquiri por impulso no shoptime. Embora achasse que nunca iria usá-lo, sucumbi aos argumentos do vendedor falastrão, mostrando sua principal característica: não tinha pás… Era muita modernidade para eu resistir! Curioso, comprei-o na mesma hora, no cartão, em três prestações, e o guardei no armário para um momento de necessidade. Pois o dia chegou e ele me proporcionou a pior noite da minha vida. Pudera, o que esperar de um ventilador… Sem pás!!!

A noite seguinte, profundamente irritado, preferi passar com a porta da sacada do quarto aberta. Pra minha surpresa, um vento manso entrou sem pedir licença e circulou por todo o cômodo. Quando, no meio da noite, acordei com a queda do abajur ao lado da cama, sorri com desdém para o ventilador que permanecia de castigo, no canto do quarto, desligado, após seu serviço mal feito em seu único dia de trabalho. Nessa manhã acordei com o raiar do sol e o “grito” dos aracuãs no jardim. Na noite seguinte repeti a experiência. Dessa vez dormi com o barulho de chuva grossa que caiu a noite inteira. Foi a primeira noite que nem lembrei do finado ar-condicionado…O final de semana chegou e com ele uma lua cheia que há tempos eu não via… Dessa vez dormi na sacada, olhando e contando as estrelas e sentindo uma brisa refrescar meu sono. Antes de adormecer identifiquei no céu o cruzeiro do sul, as três Marias e uma e outra constelação que não reparava desde os tempos de escoteiro. Vi um cometa passar e fiz um pedido. E também vi uma luz ziguezagueando que, desconfio, talvez fosse um ovni… Embora também possa ser resultado das “stellinhas” consumidas…

Hoje é segunda-feira, finalmente chegou o dia da instalação! Esta noite poderei me trancar no quarto, programar a temperatura para abaixo de zero, puxar o cobertor e esperar as estalactites surgirem no teto…

…Ou não! Talvez eu remarque a instalação pra semana que vem…


Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

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