Sponsor

AD BANNER

Últimas Postagens

A culpa em si é um sentimento inútil [ Olga Lustosa ]

 
A culpa em si é um sentimento inútil

O sentimento de culpa é algo bom. As únicas pessoas que não sofrem com a culpa são os sociopatas e serial killers. A culpa significa que você tem consciência, boa percepção. Amparado por comodidade ou ensinamento religioso, alguns preferem acreditar que toda nossa história de vida se desenrola seguindo o que já fora traçado desde que nascemos.

Do terremoto aos desmandos políticos, tudo se move de acordo com a vontade de Deus. Assim fogem da atribuição de culpa aos outros e a si próprio quando as coisas vão mal. O sentimento de culpa é apropriado para que não sejamos inclinados a esquecer certos abusos. O racismo por exemplo. O que você faz para reforçar sua oposição ao racismo? Tudo? Então ótimo. Não se acuse e nem recuse a realidade do mundo que você vive. Todo mundo tem um um crítico dentro de si, dizendo-lhe como agir, o que fazer e o que não fazer, julgando a aparência, repreendendo o modo de vida.

 Essa voz interior detém o poder incrível de nos atribuir culpas, de nos chamar a razão em momentos que absolutamente podemos mudar coisa alguma. Porém, em outras circunstâncias, temos que assumir nossas culpas pelas escolhas feitas às pressas, pelo fracasso de políticos que apoiamos, pela pobreza dos que vivem ao nosso redor.

 Tragédias ressoam repetidamente em nossos ouvidos, massacres, guerras e isso é culpa nossa. São ações iniciadas pelos homens de razão, que estão sempre com um pé na possibilidade de erro. Mas não se curve em culpas; a culpa ostentada converte-se em fraqueza. No outro extremo, também não faça a mea culpa, porque pode parecer arrogância querer que a solução de todos os problemas passe por você.

Li que as mulheres são mais propensas a dureza da culpa. Culpam-se pela educação dos filhos, pelo excesso de trabalho, pelo acúmulo de horas fora de casa, pela liberdade que experimentam. Esta voz interior é fonte de estresse negativo, abala a auto-estima, causa infelicidade. Talvez porque as mulheres ainda ouvem as vozes do passado, que estão internalizadas. São talvez os pais, irmãos, marido, a escola conservadora, que colocou-as uma condição onde tudo é preto ou branco.

O desempenho do ser humano não é perfeito de acordo com nenhum padrão, não somos robôs. Isso não é fracasso. Fracasso é pegar uma situação ou característica negativa e multiplica-la. Ver um único evento desagradável como um padrão contínuo de derrota, é excesso de generalização. Erros ou falhas isoladas não indicam que você sempre falhará. Sempre hesitei em creditar culpa aos outros ou a mim mesma, nem mesmo sei quem seria o alvo das minhas acusações. Por certo, nem todo mal pode ser evitado, então não personalizo o fracasso, não assumo a responsabilidade de circunstâncias negativas que estão além de meu controle. Não dou ouvido a voz interna que diz que tudo é culpa minha.

Na contramão da culpa, melhor avançar e aceitar que somos seres imperfeitos, que fazemos o melhor com o que temos no momento e isso tem que ser bom o suficiente. A culpa excessiva corrói a alma, é uma emoção complicada, que mistura elementos da nossa cultura, religião e da família, além do nosso crítico mais severo; nós mesmos.



Olga Borges Lustosa é cerimonialista pública e acadêmica de Ciências Sociais pela UFMT e escreve exclusivamente no blog  do Romilson toda terça-feira 
olga@terra.com.br

Nenhum comentário