Sujou [Jean Marcel]

Sujou

– ...o meu marido!

– Que saco! Lá vem você de novo falando dele...

– Tá bom, meu chuchuzinho, se você quiser eu não falo, mas se não for um ladrão, então eu acho que é ele... meu marido, abrindo a porta da frente! Escuta só...

– Meu Deus, tomara que seja um ladrão! – ainda nu, tremendo de medo, o Jonja se agarrou a mulher do homem que agora chamava sua esposa.

– Marinalva? Você está aí? – Ecoou a voz vinda lá de baixo.

– Amoreco, algum ladrão te conhece pelo nome? – procurando agora a cueca perdida entre os lençóis revirados.

– Marinalva? – insistia o marido traído.

– Ai ai ai, chuchuzinho... nós dois... eu sabia... – sussurrou apavorada – Eu te disse que não ia dar certo!

– Legal, que boa hora pra gente discutir a relação! – protesta o Jonja que não consegue achar o outro pé de meia.

– Não, tô falando do encontro da gente aqui... na minha casa, na minha cama. Eu te disse que não ia dar certo!

– A culpa agora é minha? – sussurrou gritando, se é que isso é possível – Você falou que ele estava viajando e só voltaria na semana que vem!

– Foi o que ele me disse! Mas não se pode mais confiar nem no próprio marido! Pra mim, a partir de hoje, acabou toda a confiança que eu tinha nele!

– Marinaaaaalva... Cadê você? Eu cheguei! – agora a voz parecia estar subindo a escada, para desespero dos dois!

– Tô aqui, Chuchuzão, no quarto!

– Pô, Marinalva, por que ele é o teu Chuchuzão e eu sou só o Chuchuzinho?

– Você não quer que eu te explique, quer Chuchuzinho?

– Chuchuzão... Chuchuzinho... Se eu vou morrer, tenho o direito de saber: Tem mais quantos legumes botando nessa tua horta?

– Isso não é hora para ciúmes, Chuchuzinho! Pensa em alguma coisa... e rápido!

– E se eu tentar explicar pra ele? Eu peço pra ele me ouvir antes de fazer qualquer besteira... O que você acha?

– O que eu acho? Vai pedir pra ele te ouvir quando nos vir aqui... na cama... juntos? Pede algo mais interessante já que vai ser seu último pedido!

– Uhm... – pensando – Está decidido!

– Você vai enfrentá-lo, Chuchuzinho?

– Não, vou me esconder no armário!

– No armário? Olha, melhor não... quando ele chega de viagem é lá que guarda a arma.

– Arma? Ai, meu Deus! – fazendo uma trouxa das roupas que conseguiu encontrar – Eu vou é pra de baixo da cama...

Num sincronismo que contou com mais sorte do que juízo, o Jonja se botou embaixo da cama no mesmo instante em que o seu potencial algoz, com uma mala em cada mão, entrou no quarto. Em cima da cama, seminua, sem respirar, a esposa/amante aguardava de olhos arregalados pelo pior.

– Querida... Poxa, não estava com saudade do seu Chuchuzão? Está tudo bem?

– Ãh... Como assim? Bem? Está por acaso desconfiando de mim?

– Eu? Desconfiando?

– Nem adianta disfarçar. Sinto o cheiro de desconfiança no ar!

– Mas eu...

– Era só o que faltava, Antônio Roberto, achei o cúmulo você chegar assim, de surpresa. Até parece que não confia em mim!

– Mas eu não disse...

– Só porque tem uma garrafa de champanhe e duas taças na cabeceira da cama? Isso não quer dizer nada! Agora quando eu quero repetir sou obrigada a tomar da mesma taça? Hein? Hein?

– Que taças? Eu nem tinha percebido...

– Eu te conheço, Antônio Roberto! Está me olhando com o canto dos olhos...

– Mas eu não...

– Está, sim! Não negue! Daqui a pouco vai dizer que eu estava te traindo e que tem alguém escondido aqui neste quarto!

– Menos... – sussurra o Jonja, encolhido embaixo da cama do casal, vestindo só a cueca e um único pé de meia. 

– Só falta querer olhar embaixo da cama pra ver se tem alguém! – Ela prossegue, mostrando-se indignada.

– Meeenos... – suplica o Jonja, cutucando o colchão com o joelho.

– Isso nem passou pela minha cabeça, Marinalva! Você disse... embaixo da cama? Não entendi... O que tem embaixo da cama?

– NADA! – saindo debaixo do lençol e se pondo entre a cama e o marido. – O que poderia ter embaixo da cama?

– Nossa, querida, que é isso?

– Que é isso? Que é isso? “Que é isso” pergunto eu!!! Não admito que duvidem da minha moral!

– Não, você não entendeu... – olhando fascinado para a esposa – “que é isso” essa lingerie com pompom vermelho... que demais!

– Pompom vermelho? – olhando pra baixo e se dando conta que ainda vestia parte da superprodução mulher-maravilha adquirida especialmente para aquele encontro furtivo – Tá vendo, Chuchuzão? – e pôs-se a chorar! – Tanto esforço e você arruinou tudo! Estragou a surpresa!

– Mas meu bem... Você nem sabia que eu iria chegar... Eu tentei te ligar e ninguém atendeu.

– Por isso mesmo, quis fazer uma surpresa totalmente... totalmente... surpreendente! Se eu fizesse no dia da tua chegada não seria óbvio? Seria, claro que seria! Todas as esposas fazem isso! Mas eu não, tola que sou, quis fazer diferente... Algo inacreditável, extraordinário, inconcebível! Arrumei-me toda pra te ligar!

– Ia me mostrar o pompom por telefone, Marinalva? Como eu ia ver?

– Tá vendo, Antônio Roberto... – chorando mais ainda – Você está caçoando de mim! Você não tem o menor romantismo! Nada do que eu faço está bom para você! Quando você me beija, também não fecha os olhos? Então... Do mesmo modo não vê nada. É só a imaginação! Mas agora esquece, você estragou tudo!

– Eeeeu estraguei?

– Você sim... Você e o seu ciúme! – quase não conseguiu terminar a frase de tanto que chorava e soluçava.

– Mas meu bem...

– Até tomei um champanhe para ter coragem de fazer a surpresa! Duas taças! Já estava até descendo pra buscar mais uma taça quando você chegou... Desconfiando de mim... Querendo olhar embaixo da cama pra ver se tem alguém...

– Eu não quero olhar embaixo da cama, meu bem!

– Ele não quer olhar embaixo da cama! – sussurrou o Jonja entre uma oração e outra.

– Não senhor! Agora você vai olhar sim! Eu faço questão! Aaaaah se vai! Eu quero que você saiba a mulher que você tem!

– Melhor não saber! – sussurrava o Jonja em pânico.

– Mas eu não quero olhar nada! – dizia o Antônio Roberto, tampando os olhos, enquanto sua esposa ameaçava levantar o lençol que cobria a cama.

– Ele não quer olhar! – chorando de nervoso, repetia o Jonja baixinho.

– Antônio Roberto – ela com as mãos na cintura – eu não sei o que faço contigo... Seu comportamento foi... foi... inaceitável!

– Mas o que foi que eu fiz, Marinalva?

– Você não tem palavra, Antônio Roberto! E pior... Não confiou em mim! Euzinha... Sua própria esposa! Você não valoriza a mulher que tem!

– Marinalva – respirando fundo – fazemos assim... Eu nem desfiz as malas ainda. Eu volto pra lá e retorno semana que vem, conforme planejado! Fingimos que eu não estive aqui, ok? O que acha? Tudo volta ao normal!

– Uhmmm – limitou-se a dizer a esposa “indignada”, braços cruzados e expressão de nojo.

– Mas me promete só uma coisa, Marinalva?

– Diz... – fazendo cara de pouco caso.

– A surpresa... Promete que vai me ligar? Quero dizer... vestida assim...

– Vou pensar, Chuchuzão! Vou pensar...

Depois que o Antônio Roberto se foi, foram necessários pelo menos mais vinte minutos para o Jonja concordar em sair do esconderijo. “Melhor não arriscar” dizia ele, ainda em estado de choque, agarrando-se ao estrado. Aos poucos, porém, tudo foi voltando ao normal e até tentaram recomeçar de onde tinham parado... Mas ao que parece, nem tudo seria de novo como era antes!

– Olha, Marinalva... desculpa, isso nunca aconteceu comigo! Foi a primeira vez!

– Pô, Chuchuzinho... O que está rolando? Você nunca ficou assim... sem “apetite”!

– Sabe o que é, Marinalva, depois disso tudo que aconteceu... Tudo que eu ouvi... Tudo o que foi dito...

– Já sei, Chuchuzinho, você se sente constrangido de estar aqui, no meu quarto!

– Não, não é isso, é que... bom... será que não dava pra você mudar o meu apelido? Quem sabe para “berinjela”, “nabo”... ?!


Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com


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