A nova safra de chatos [Arnaldo Jabor]

A nova safra de chatos

Uma vez, escrevi um artigo sobre 'os chatos' que foi um sucesso entre chatos e não chatos. Descobri em minhas pesquisas que o chato se sabe como tal, mas é movido pela esperança obstinada de um dia se libertar dessa categoria e ser aceito por todos. Nesta utopia, ele se gasta e chateia todo mundo. Existem muitos tipos de chatos catalogados, sendo o mais famoso deles, o rei, o fundador, o 'chato de galochas', cujo nome provém do cara que saía de casa com chuva torrencial, calçava as galochas e ia encher o saco de alguém. O contato com os chatos me revela uma variada gama de comportamentos de nosso tempo. Os chatos sempre se renovam em safras, como os vinhos. A safra de 2013 tem se revelado muito rica de sabores: uns mais encorpados, outros mais suaves e divertidos, etc. 2013 tem sido um bom ano para novos tipos. 

Depois que eu comecei a falar na TV, virei um papel de mosca para chatos. Não quero bancar o 'famosinho', mas, veja bem (como dizem os chatos), o sujeito te vê na TV, no quarto onde ele está transando com a mulher e você na tela, falando sobre o mensalão. O cara fica íntimo, te agarra na rua e gruda como um colega conjugal.
Há chatos masoquistas e sádicos. O primeiro é aquele que gosta de chatear para ser maltratado: "Porra, não enche, cara!". Ele adora ouvir essa frase para remoer um rancor delicioso que valoriza sua solidão: "Não me entendem, logo sou especial!". 

O chato sádico quer ver teu desespero e escolhe os piores momentos para te azucrinar: "Poxa, sei que sua mãe morreu ontem, mas ouve meu problema com minha mulher...".

Temos o chato do elevador. Estou num elevador vazio, indo para o 20. Entra um cara, e me olha. Eu, precavido, já estou de cabeça baixa. Há uns momentos tensos de dúvida: "Ele ousará falar?" - penso. Passam uns andares. Não dá outra: "Você não é aquele cara da TV?". "Sou" - digo, pálido. "Como é teu nome mesmo?" "É Arnaldo", digo eu, querendo enforcá-lo na gravata de bolinhas. "Não... é outro nome." "Jabor", digo, desesperado. "Isso, porra, claro... É você mesmo que escreve aquelas coisas?" E eu penso, sorrindo: "Não; é a tua mãe que me manda". 

E os autógrafos? "Seu nome qual é, meu bem?" "Ildilene... não... faz de novo - Yldilene, com Y." "Pronto!" - digo.

"Escreve também para meu noivo, aqui no guardanapo, ele te adora... Hermogênio... com H...."

Um dos mais angustiantes é o chato íntimo altissonante, que berra de longe seu nome na churrascaria: "E aí, Ronaldo Jabur, isso tem jeito?".

E o chato em dupla? Isso aconteceu. Oito da manhã, aeroporto (sempre esse lugar fatal) e vem o cara. "O mensalão vai dar em alguma coisa?" Começo a balbuciar qualquer coisa. Aí veio um outro cara, que queria falar também. E então se deu a epifania da chatura. Os dois começaram a discutir porque o recém-chegado queria me chatear também... e um era de esquerda e o outro de direita. Assisti maravilhado a uma polêmica febril sobre nosso futuro.

Com o velocidade da tecnociência, multiplicaram-se os chatos do Facebook e os 'chatos do celular'. Ou seja, de repente, você se vê posando ao lado de um bigodudo desconhecido no banheiro, enquanto o faxineiro clica, entre privadas, a foto para a eternidade. Há também o famoso chato corno que te pede para falar ao telefone com sua mulher ("Fala com a Flavia - ela te adora..."). E por aí, vão...

Mas, tirante, é obvio (uma chatíssima expressão), os chatos conhecidos, me interessa mais nesse artigo examinar a forma, o estilo do chato, o que os move, a que aspiram. 

Eles surgem de longe. Fingem que não te veem, mas eu (velho de guerra) sei que eles virão. Eles chegam sorrindo, mansos, se autocriticando na base do 'não quero te chatear, mas... quem manda aparecer na TV? - ha ha?'. 

Em geral, ele exibe uma expressão facial entre a admiração por você mesclada a uma pontinha de malignidade, porque ele se sabe importuno e porque há sim crueldade na admiração. Quando ele nota que você adota posições de fuga, suas falas se encadeiam em metralhadora de palavras, de modo que não haja brechas que te permitam uma desculpa tipo "meu pai está no hospital e tenho de ir correndo...". Ele não ouve e te segura o braço, quando você começa a se debater. Alguns demonstram insatisfação com a atitude fugitiva e a irritação lhes assoma no rosto, pois, afinal, ele está te elogiando e você denota ingratidão. 

Ele sente meu sorriso glacial e se mostra ofendido, o que provoca em mim um vago sentimento de culpa que tenho de superar até me desprender e sair apressado. Mas ele me segue com cara de desprezado, sob o olhar reprobatório de circunstantes que te chamarão de 'metido a estrela só porque diz aquelas bobagens na TV'. 

A importância do chatos é antropológica. Neles estão contidos muitos anseios individuais de nossa cultura: o queixume político, a esperança de serem aceitos, o rancor contra os políticos. É extrema a violência de muitos choferes de táxi, por exemplo: "Tem mais é que matar esses putos todos, Maluf é que sabia..." ou a homofobia explícita: "Esses veados têm de entrar é na porrada...".

É necessário um estudo: a sociologia do chato. Guilherme Figueiredo tentou e fez um livro chatíssimo. O chato não pode ser maltratado; primeiro, porque não adianta, ele gruda; segundo, porque são um tesouro cultural. Nossa plêiade de chatos é um resumo de nosso desejo de felicidade, de um encontro solidário entre contemporâneos. Continuo a achar que o chato crônico, legítimo, 'escocês', é, antes de tudo, um carente. Ele precisa de você para viver; sozinho, ele definha como um vampiro sem canudinho. Provavelmente, tiveram pai que batia, mulher que traía, e são vítimas de uma compulsão inelutável. Por isso, não sou contra os chatos. Eles são nós. A gente sempre é chato para outro alguém. Meu Deus, quantas vezes já aporrinhei tantos. 

Como lutar contra eles? O Tom Jobim, uma das maiores vítimas de chatos, me ensinou um truque: 

"Use óculos escuros. O chato fica desorientado quando não vê teus olhos. O chato quer ver o próprio rosto refletido em teus olhos desesperados. Com você de óculos escuros, ele desiste e vai embora".




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