INTERNET SEM PRECONCEITO [Paulo Tedesco]

INTERNET SEM PRECONCEITO


Numa conversa entre escritores e editores, não faz muito, havia declarado minha expressa opinião em se evitar taxações sobre o que o significado do mundo digital, para a literatura e para a cultura. Argumentei que a rede mundial digital, agora não mais somente composta de computadores, estava em processo conformação, a amoldar-se na medida em que se expande desafiadora e sem fronteiras; e nesse caminho muito ainda estaria por ser visto, muito mesmo.

Pois meu espanto são as opiniões de alguns intelectuais que ouço aqui e acolá. Esses, dotados daquela arrogância típica de elites pensantes ultrapassadas, disparam contra a rede digital, como se fosse ela a inimiga da boa cultura e do conhecimento, ou que fosse ela observada com desconfiança, feito planta traiçoeira a crescer em ambiente descontrolado. Pobres ignorantes.
Jamais se deve punir a flor por sua pobre terra e o vaso roto e apertado. Regá-la ainda que se desgoste da cor, ainda que não se entenda seu impreciso aroma; observar sua ofensividade para outras espécies se houver, sem descuidar de suas possibilidades; expô-la ao sol quando querem roubar-lhe o viço, e sobretudo não dar ouvidos à todas opiniões sobre seu futuro. Jardinagem requer paciência e tolerância.

A internet é o novo jardim da comunicação humana, – vou além, a nova Amazônia da espécie sapiens-sapiens; o pulmão do mundo do pensamento, do aprendizado –, precisa ser cuidada, com muito carinho, jamais condenada. As mudanças acontecem velozes, assustadoramente, mas em hipótese alguma essa velocidade deve significar repressão ou condenações – sim, há interesses ruins e gente má na rede mundial, mas, diabos, onde não há gente assim?

Cuidemos, pois, protejamos suas riquezas, combatamos suas fraquezas sem cercear suas capacidades, sem podar os brotos poderosos a surgir-lhe inesperadamente. Caros senhores intelectuais de plantão, funcionários de mídias decadentes, o verdadeiro inimigo do conhecimento ainda são os interesses corporativos e não uma rede tecnológica de comunicação que não tem dono tampouco forma definida. 


Paulo Tedesco é escritor premiado em concursos de poesia entre os anos de 1996 e 1998 pelas prefeituras municipais de Farroupilha e Caxias do Sul. Residiu em Fort Lauderdale / Flórida, Estados Unidos, onde colaborou intensamente com jornais e sítios eletrônicos da comunidade brasileira. Atualmente participa na Oficina Literária Charles Kiefer em Porto Alegre/RS, cidade onde exerce a profissão de consultor gráfico-editorial

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