Rubem Fonseca marca 50 anos de carreira com novo livro de contos [Guilherme Freitas]


Rubem Fonseca marca 50 anos de carreira com novo livro de contos

Aos 88 anos, Rubem Fonseca lança coletânea de inéditos, ‘Amálgama’, e reedição da obra de estreia, ‘Os prisioneiros’ (1963). Autores e críticos comentam trajetória do escritor que, essa semana, numa rara aparição, exaltou a leitura em discurso para operários no Leblon


Na terça-feira, o canteiro de obras do metrô na praça Antero de Quental, no Leblon, foi cenário de uma rara intervenção pública de Rubem Fonseca, morador do bairro (veja no vídeo acima). Conhecido por evitar todo tipo de evento literário no Brasil — mas não no exterior, onde se apresenta com desenvoltura —, ele concordou em participar da inauguração de uma pequena biblioteca que leva seu nome, destinada aos trabalhadores da obra. Aos 88 anos, em meio ao estrondo das escavadeiras e a uma nuvem de poeira, fez um discurso enfático para os operários, com gestos teatrais, palavras de ordem (“Viva a leitura! Viva o trabalho!”), piadas sobre a aparência de sua personagem feminina mais famosa, Lucia McCartney, e citações a Platão (“Ele dizia que o homem precisa saber duas coisas: nadar e ler!”). Deixou-se até fotografar. Mas, seguindo um hábito de décadas, recusou-se a dar entrevistas.
— Está tudo nos livros — limitou-se a dizer Fonseca, apontando para a recém-inaugurada biblioteca onde repousavam, em uma prateleira de destaque, os quase 30 títulos que compõem sua obra completa.




Essa obra, iniciada com a publicação do volume de contos “Os prisioneiros” em 1963, chega aos 50 anos em 2013 ganhando mais um volume, também de narrativas curtas, “Amálgama” (Nova Fronteira), que será lançado este mês. Nele, fãs e detratores de Fonseca encontrarão farto material para continuar o debate sobre sua trajetória. Do conto de abertura, protagonizado por uma adolescente que dá um destino surpreendente a uma gravidez indesejada, ao último, intitulado apenas “Foda-se”, o novo livro exibe temas e técnicas conhecidos do autor.

Está lá o realismo bruto expresso tanto na linguagem quanto no universo dos personagens, como em “Os pobres e os ricos”: “Bola 7 bateu na porta da minha casa, minha casa porra nenhuma, meu barraco, nem meu barraco é, eu alugo essa merda”. Também as obsessões sexuais descritas de forma crua: “Olho fascinado mulher andando na rua, imagino a estrutura de tecidos orgânicos entre as suas pernas”, lê-se em “Poema da vida”. E a mistura de referências eruditas e pop, e mesmo de autorreferências: “O matador de corretores”, por exemplo, pode ser lido como uma versão para o Rio de Janeiro em tempos de bolha imobiliária do célebre conto “Passeio noturno”, de “Feliz ano novo”, em que um homem descarrega suas frustrações atropelando transeuntes de madrugada.


Reforçando o momento de reavaliação da obra de Fonseca, a Nova Fronteira reedita também seu livro de estreia, “Os prisioneiros”. Lançado em 1963, quando Fonseca, então com 38 anos, era executivo da Light (depois de um breve período como delegado de polícia nos anos 50) e havia publicado apenas dois contos em revistas, o livro saiu por uma pequena editora, a GRD, e foi bem recebido pela crítica. Coordenador do projeto de reedição das obras de Fonseca, o jornalista Sérgio Augusto enumera em seu posfácio os elogios feitos na época por Fausto Cunha, Assis Brasil e Wilson Martins (que saudou “Os prisioneiros” como “um clássico primeiro volume, cheio de promessas e revelando um escritor que traz a literatura no sangue”).

— Foi sucesso instantâneo — lembra Augusto, amigo de Fonseca desde os anos 60. — Mas ele nem toca no assunto do reconhecimento, não liga muito. Ou então é charme que ele faz. Mas pode acreditar que está mais interessado nos operários do metrô do que em jornalistas — brinca.

O escritor Sérgio Sant’Anna morava em Belo Horizonte quando leu “Os prisioneiros” e se impressionou com “um retrato do Brasil contemporâneo de uma forma que ninguém fazia”. Sant’Anna chegou a mandar seu primeiro livro, o volume de contos “O sobrevivente” (1969), para Fonseca, e recebeu o incentivo do autor. Não se sente influenciado, mas sublinha o que aqueles primeiros livros trouxeram de inovador para a literatura brasileira:

— Ele foi pioneiro em mostrar um Brasil mais feroz, mais barra pesada, mais industrializado. Enxergou esse Brasil “supermoderno” como um país fodido e soube traduzir isso em literatura.

Professor da PUC-Rio, o crítico Renato Cordeiro Gomes discute no livro “Todas as cidades, a cidade” a representação do espaço urbano em vários autores contemporâneos, entre eles Fonseca. Gomes alinha o autor de “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro” a uma tradição de escritores que criaram uma imagem própria da cidade, como Manuel Antonio de Almeida, João do Rio, Machado de Assis e Lima Barreto. Gomes aponta que, como se lê em um dos contos do detetive Mandrake, o Rio de Fonseca “não é o que se vê do Pão de Açúcar”, e sim o espaço descrito em “Intestino grosso” como repleto de “pessoas empilhadas (...) enquanto os tecnocratas afiam o arame farpado”.

— O protagonista de “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro” vê um lugar que não corresponde ao mito da Cidade Maravilhosa. É um Rio marcado pela violência, que vai perdendo sua aura e sua memória. E essa violência cruza toda a cidade e todas as classes.

A crítica e também professora da PUC-Rio Vera Lúcia Follain de Figueiredo, que analisou a obra de Fonseca no livro “Os crimes do texto”, identifica uma linha-mestra que percorre toda a trajetória do escritor, de “Os prisioneiros” aos textos mais recentes. Para Vera, a força da literatura de Fonseca não está exatamente no “brutalismo” que tem sido exaltado por críticos e leitores desde sua estreia, mas na “corrosão da antinomia de valores que sempre pautou a cultura ocidental, como bem e mal, sublime e grotesco, baixa e alta cultura”.

— Os leitores costumam associar a obra de Rubem Fonseca à violência dos crimes cometidos por muitos de seus personagens. Mas ele trata de uma violência mais profunda, aquela sentida por personagens que não acreditam mais nos valores da cultura ocidental, porém não têm outros valores para colocar em seu lugar e ficam sem chão — diz Vera, que cita como exemplo disso uma imagem do conto “A coleira do cão”, do segundo livro de Fonseca. — O cão já rompeu os grilhões, não está mais preso, mas ainda arrasta a coleira por aí.

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