Carolina Maria de Jesus [Escritora Brasileira]

Carolina Maria de Jesus nasceu em Minas Gerais, numa comunidade rural onde seus pais eram mineiros. Filha ilegítima de um homem que já era casado, foi tratada como pária durante toda a infância, e sua personalidade agressiva não fez nada para aliviar a situação. Quando chegou à idade de sete anos, a mãe de Carolina forçou-a a frequentar a escola depois que a esposa de um rico fazendeiro pagou as despesas para Carolina, bem como outras pobres crianças negras no bairro. No entanto, ela parou de frequentar a escola pelo segundo ano, mas aprendeu a ler e escrever. Ela mal sabia na época, essas coisas desempenhariam um papel muito importante na sua vida adulta.

A mãe de Carolina tinha dois filhos ilegítimos, o que ocasionou sua expulsão da Igreja Católica enquanto ela ainda era jovem. No entanto, ao longo de sua vida, ela foi uma católica devota, mesmo nunca tendo sido readmitida na Igreja Católica. Em seu diário, ela muitas vezes fez referências bíblicas, e à Deus.

Em 1937 sua mãe morreu e ela foi forçada a migrar para a metrópole de São Paulo. Carolina fez sua própria casa, usando madeira, lata, papelão, e qualquer outra coisa que pudesse encontrar. Ela iria sair todas as noites para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família. Quando ela encontrava revistas e cadernos antigos, guardava para escrever dentro. Ela começou a escrever sobre seu dia-a-dia, sobre como foi morar na favela. Isto irritava seus vizinhos, que não eram alfabetizados, e por isso se sentiam desconfortáveis por vê-la sempre escrevendo, ainda mais sobre eles.



Teve vários casos amorosos quando jovens, embora tenha se recusado a casar-se, por ter visto muita violência doméstica na favela. Ela preferiu permanecer independente. Todos os seus três filhos tinham pais diferentes, um dos quais era um homem rico e branco. Em seu diário, ela detalha o cotidiano de favelados e, sem rodeios, descreve os fatos políticos e sociais que ordem as suas vidas. Ela escreve sobre como a pobreza e o desespero pode levar as pessoas de alta autoridade moral a comprometer seus princípios, honra, e a si mesmos simplesmente para conseguir comida para si e suas famílias. Não há nenhuma chance de economizar dinheiro, pois quaisquer ganhos extras devem ir imediatamente para pagar dívidas.




O Diário de Carolina Maria de Jesus foi publicado em agosto de 1960. Ela foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, em abril de 1958. Dantas estava cobrindo a abertura de um pequeno parque municipal. Imediatamente após a cerimônia uma gangue de rua chegou e reivindicou a área, perseguindo as crianças. Dantas viu Carolina de pé na beira do playground gritando "Saia, ou eu vou colocar você em meu livro!" Os intrusos partiram. Dantas perguntou o que ela queria dizer sobre seu livro. Ela se mostrou tímida no início, mas levou-o para seu barraco e mostrou-lhe tudo. Ele pediu uma amostra pequena e correu no jornal. A história de Carolina "eletrizou a cidade" e, em 1960, Quarto de Despejo, foi publicado.




A tiragem inicial de dez mil exemplares se esgotou em uma semana (a wikipédia gringa diz que foras trinta mil cópias vendidas nos primeiros 3 dias).

Embora escrito na linguagem simples e deselegante de uma favelada, seu diário foi traduzido para treze idiomas e tornou-se um best-seller na América do Norte e Europa. Mas não foi somente fama e publicidade que Carolina ganhou com a publicação de seu diário, mas desprezo e hostilidade de seus vizinhos. "Você escreveu coisas ruins sobre mim, você fez pior do que eu fiz", gritou um vizinho bêbado. A chamavam de prostituta negra, que tinha se tornado rica por escrever sobre a favela, mas recusou-se a compartilhar do dinheiro. Junto com as palavras dos vizinhos cruéis, as pessoas jogavam pedras e penicos cheios nela e em seus filhos. As pessoas também estavam com raiva porque ela se mudou para uma casa de tijolos nos subúrbios com os ganhos iniciais do seu diário. "Vizinhos se juntaram ao redor do caminhão e não deixá-la partir. "Você acha que são de classe alta agora, não você", eles gritavam. Os vizinhos locais desprezava mesmo que a alta realização de seu diário aumentou o conhecimento dessas favelas ao redor do mundo.

A filha de Carolina, Vera, afirmou em entrevista que sua mãe sempre gostou de ser o centro das atenções, e aspirava a se tornar uma cantora e atriz. No entanto, apesar de seus esforços para o fazer, a editora informou-lhe que isso não iria beneficiar e que ela deveria continuar a escrever seus livros. Além do Quarto de Despejo, escreveu também Casa de Alvenaria (1961), Pedaços de Fome (1963), Provérbios (1963) e Diário de Bitita (1982, póstumo). Ela morreu em 1977, aos 62 anos.

Carolina Maria de Jesus: Literatura e profecia na favela

por *Maria Clara Lucchetti Bingemer

Carolina não se casou e foi mãe de três filhos: João José de Jesus, José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima. Migrou para São Paulo em 1947, em busca de vida melhor, indo morar na extinta favela do Canindé, na zona norte da cidade. Aí trabalhou como doméstica, não se adaptando, contudo, a esse tipo de trabalho. Passou a trabalhar como catadora de papel, trabalho que realizou até sua morte. Faleceu em 13 de Fevereiro de 1977, com 62 anos de idade e foi sepultada no Cemitério da Vila Cipó, cerca de 40 km do centro de São Paulo.

Quem lê a escrita sensível e poética de Carolina não imagina como sua escolaridade formal foi parca e lutada. Foi matriculada em 1923, no Colégio Allan Kardec, primeiro Colégio Espírita do Brasil. Foi mantida no colégio graças à generosidade de uma benfeitora, a senhora Maria Leite Monteiro de Barros, para quem a mãe de Carolina trabalhava como lavadeira. No Colégio Allan Kardec Carolina estudou pouco mais de dois anos. Toda sua educação formal na leitura e escrita advém deste pouco tempo de estudos.

Até aqui, temos uma história que poderia ser a de qualquer outra mulher brasileira pobre: negra, semi-alfabetizada, favelada, como tantas que existem pelo Brasil afora, não fosse por um detalhe – a paixão de Carolina Maria de Jesus pela leitura e pela escrita. Isso fez toda a diferença em sua vida.  Carolina dividia seu tempo entre catar papel, cuidar dos filhos e escrever. E sua escrita acabou sendo documento importante e parte fundamental da literatura de denúncia feita pela mulher, objeto de estudo e pesquisa por todos aqueles que desejam conhecer o verdadeiro Brasil que se esconde através das fachadas das elites.


Além de Quarto de despejo, Carolina também publicou Casa de alvenaria (1961), Provérbios e Pedaços da fome (1963) e Diário de Bitita (publicação póstuma, realizada em 1982, pela editora francesa A. M. Métailié). Há indícios, na prosa da escritora, de que ela teria tido acesso a obras de grandes escritores brasileiros, provavelmente nas casas em que trabalhou, o que explicaria as menções em suas obras a poetas como Casimiro de Abreu e Castro Alves. Em seus livros, Carolina alterna incorreções ortográficas, sintáticas e de pontuação – reflexos da linguagem oral e da alfabetização deficiente – com o emprego correto de termos específicos da linguagem escrita culta.

Outro traço particular da escrita de Carolina Maria de Jesus é sua consciência política e social. Passagens de seus livros mostram que a escritora estava sempre informada do que acontecia não só em São Paulo, mas também em outros Estados, provavelmente por meio de notícias lidas em jornais que via nas bancas.



A obra mais conhecida, com tiragem inicial de dez mil exemplares esgotados na primeira semana, e traduzida em 14 idiomas nos últimos 35 anos é Quarto de Despejo. Lançado pela Livraria Francisco Alves em agosto de 1960 e editado oito vezes no mesmo ano, Quarto de despejo teve mais de 70 mil exemplares vendidos na época, quando para se considerar uma publicação de sucesso, era preciso alcançar a margem de, aproximadamente, quatro mil exemplares. Nos cinco anos seguintes, Quarto de despejo alcançou mais de 40 países, como Dinamarca, Holanda, Argentina, França, Alemanha, Suécia, Itália, Tchecoslováquia, Romênia, Inglaterra, Estados Unidos, Rússia, Japão, Polônia, Hungria e Cuba.

Carolina não era alienada.  Tinha consciência de sua condição e da injustiça que lhe fazia levar aquela vida.  Em seu diário escrevia: “Hoje em dia quem nasce e suporta a vida até a morte deve ser considerado herói.” Desanimo, desespero, tentação de suicídio, tudo isso rondou Carolina durante sua vida.  Mas também se pode ver em seu livro que Deus não a abandona e continua a dar-lhe coragem para a luta de cada dia.  E mesmo a deslumbra com sonhos e visões encantadas que lhe aquecem a alma poética.



Por isso se podem ver em seu diário trechos como este, do dia 2 de setembro: 

"...Eu durmi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vistido era amplo. Mangas longas côr de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetaculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.

Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetaculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minh'alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meus agradecimentos." 

Aguerrida, Carolina em meio a seu indizível sofrimento, mantinha a esperança.  Sonhava com o dia em que seu país, seu povo, iam melhorar.E produzia escrita profética.  Prova disso é o que escreve em seu diário: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.”

Ela morreu três anos antes da fundação do PT e mais de vinte anos antes de ver um operário retirante, que passou fome na infância, ganhar pelo voto a Presidência da República e ser reeleito para um segundo mandato.

Que diria hoje Carolina, no final do segundo mandato do governo Lula?  O que escreveria em seu diário?

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, e Diretora Geral de Conteúdo do Amai-vos. É também autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.


Carolina Maria de Jesus está sepultada no Cemitério da Vila Cipó, a 40 Km do centro de São Paulo. Em toda a vida, Carolina estudou pouco mais de dois anos. O suficiente para aprender o básico da leitura e escrita. E foi assim que ela expôs a exclusão que vivia.


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Carolina Maria de Jesus
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