Querido diário [Jean Marcel]

Querido diário

"Querido diário..." Querido diário? Pode parar! Não sei por que lhe chamo de "querido". Na verdade, não tenho a menor intimidade contigo! Alias, nem pretendo ter! Sempre fui um sujeito reservado, do tipo que só vai ao banheiro quando está em sua própria casa e mesmo assim de porta trancada, ainda que eu more sozinho. Portanto, acostume-se a ser chamado só de Diário, "querido", quem sabe um dia... Quem sabe?! Não leve a mal, mas eu nem lhe tinha como minha primeira opção para ouvir minha história. Fosse o que me restou.

Acho que todas as pessoas deveriam ter alguém com quem desabafar. Sabe, uma espécie de confidente. Eu adoraria ter um! Alguém que me escutasse sem questionar, sem julgar meus atos, nem me condenar por meus maus pensamentos, mesmo que seja uma vontade secreta de bater com um gato morto na cabeça do meu gerente de banco até que ele mie. O gerente, não o gato. Não, eu nunca fiz isso, mesmo que tenha tido vontade, juro, sério, estive perto disso, mas nunca fiz! 

Aconselharam-me a comprar um animal de estimação para que eu tivesse alguém com quem falar. Evidentemente não um gato! É... Um gato, não! Até porque as pessoas pensam que são donas do gato, quando na verdade o gato é que é dono das pessoas! Alguém já viu um gato obedecer o "dono"? Eu posso dizer por que eu já tive um gatinho. Nunca vou esquecer! Morreu ao cair do 23º andar. Coitadinho! Na verdade eu que joguei o bichinho: queria ver se ele caia em pé! Que orgulho... Pena que não resistiu! Bom, foi aí que me sugeriram: "quem sabe não seria melhor um cachorro?!" Será? Eu ainda relutei, mas no final me convenceram. "O melhor amigo do homem! É companheiro e leal", disseram. Que mentira! Nessa não caio novamente!

Jamais contei para ninguém, mas nunca superei o fato do Ludovico, meu labrador, gostar mais da empregada do que de mim. Fiz de tudo, até proibi-la de andar de roupas curtas, mas não adiantou. Estávamos ambos apaixonados por ela e flagrantemente o Ludovico estava levando a melhor, já que só ele ganhava cafuné atrás da orelha e cosquinhas na barriga. Eu sei que mandar castrá-lo foi jogo sujo e ele nunca me perdoou por isso, mas era importante deixar claro quem era o dono da casa, quem mandava de fato, enfim, quem dava a última palavra... Pelo menos quando a minha esposa não estivesse em casa. E o Freud então? Meu basset hound que comprei logo depois que mandei mat... quer dizer, que o Ludovico se foi. Achei que éramos amigos, mas o Freud se suicidou atirando-se propositadamente na frente de um caminhão quando soube que ficaria comigo após a minha separação. E olha que convencer a Maria Creusa de que ele ficaria comigo na divisão de bens me custou a coleção completa dos discos do Julio Iglesias. Nunca entendi o porquê de ele ter feito isso! Sempre lhe dei atenção, passava horas e horas conversando com ele, contando meus problemas, falando de mim, expondo meu "eu" nos míiiiinimos detalhes... Por que terá se matado logo quando teríamos mais tempo para ficarmos ainda mais próximos?! Lembro que minha amargura foi tanta que jurei nunca mais ter um bicho de quatro patas como "melhor amigo". Foi por despeito que fui até uma loja de animais de estimação e comprei uma cobra! Achei que aumentaria minha auto-estima ter pela primeira vez na vida "alguém" rastejando atrás de mim. De fato, no começo até nos demos bem, ela inclusive entendeu meu desgosto com os cachorros e, querendo ganhar minha simpatia, "desapareceu" com todos os cães que moravam num raio de cinco quarteirões. Comeu-os um a um. Minha afeição por ela era cada vez maior. Foi um período feliz, sem falar que economizei uma grana em ração para cobras. Mas essa boa fase durou pouco.

Nunca vou esquecer do último poodle que ela trouxe para casa. Brincou com ele por dias antes de devorá-lo. Igualzinho minhas namoradas faziam comigo! A pobre criaturinha chegou até a achar que entraria pra família. Conclui que as fêmeas são todas iguais! Mas como estava dizendo, esse período durou pouco e logo começaram as provocações. O fato é que nunca me dei bem com o sexo oposto e com a Margô não foi diferente! Eu contei que ela se chamava Margô?

Dei esse nome em homenagem a uma ex-namorada que tive. Meus amigos achavam que era por que ela tinha o mesmo corpinho que a minha ex. De fato, sem cintura e com seios inexistentes, eram mesmo parecidas. Ambas lembravam uma taquara verde. Se bem que, justiça seja feita, a Margô rebolava como ninguém... Jogava o corpo de uma forma sensual por onde passava provocando arrepios em quem estivesse por perto... Por isso me apaixonei! Estou falando da cobra, claro! Minha ex, não! Essa não tinha o menor sex appeal. Eu inclusive era alvo de chacota por estar com ela e mais ainda quando ela me abandonou. Mas o que de fato me fez fazer essa homenagem, dando-lhe o mesmo nome de uma paixão juvenil, foi o seu olhar.

Reconheci o mesmo olhar no instante em que a vi. Nunca esquecerei aquele olhar falso e traiçoeiro. Talvez por isso tenha ficado com ela. Era como uma nova chance. Eu achei que dessa vez poderia mudá-lo... O olhar. Acreditei que com carinho, afeto e alguns camundongos de almoço, eu conseguiria cativá-la.

Enganei-me mais uma vez! Novamente me vi as voltas com um amor não correspondido. Nossa relação foi se deteriorando a tal ponto que quando percebi, tudo o que ela fazia me irritava. Irritava-me, por exemplo, ter que dividir com a Margô a pia do banheiro... E eu sei que ela percebia meu desconforto, pois bastava eu fazer menção de querer escovar os dentes para ela se postar lá, toda enroladinha, testando-me até onde eu toleraria suas provocações. Sem falar que me incomodava vê-la o tempo todo mostrando a língua para mim! Com o tempo, nosso convívio tornou-se mesmo insuportável, pois até as coisas que no início nela me atraíam e eu via como virtudes, depois, passei a enxergar como graves defeitos. Chegou a um tal ponto que me aborrecia até o barulho do seu chocalho! Foi o princípio do fim! Mas sem dúvida, a gota d'água foi quando ela se aproximou de mim fingindo que queria me abraçar. Eu sei, fui ingênuo, só depois me dei conta de que ela não tinha braços. Mas aí já era tarde... Que dissimulada! Não fosse o zelador escutar meus gritos abafados não sei o que teria acontecido. Sim, gritos abafados, pois só minhas pernas ainda estavam para fora da sua goela! Sabe... cobras tem pescoços compridos! Foi nesse dia que percebi que não dava mais.

Precisava colocar um ponto final nessa história. Nossa relação estava completamente desgastada! Ambos queríamos nos separar e tudo indicava que ela pretendia ficar com a casa. Eu precisava ter coragem, tomar uma atitude, por mais difícil que fosse ter que dizer adeus. Mas para minha surpresa, foi mais fácil que pensei. Agora, olhando para trás, lembro-me que nem me despedi quando ela se foi! Eu sei o que você está pensando, mas não... eu não a sacrifiquei! Tinha motivos para fazê-lo, mas não tive coragem! Na verdade não foi preciso. Descobri que ela estava me traindo com a mangueira do aspirador de pó.  Isso mesmo: Traição! E provavelmente isso já vinha acontecendo há meses... Só eu não sabia! Então... Ela teve o fim que ela própria cavou. Foi sugada, tragada num beijo da morte! Eu só precisei ligar o aspirador na tomada e botar na força máxima. Foi engolida viva... Provou do seu próprio veneno! Os camundongos no céu devem ter batido palmas! É claro que ela não irá para o céu! O homem lá de cima tem marcação com cobras desde aquela "parada" da Eva. Margô, minha Margô... você se foi... Tragada pelo aspirador! E você pensa que ela morreu de primeira?! Que nada! Tem mais vidas que o gato que usei para bater na cabeça daquele gerente. Ops... eu juro que não fiz aquilo! Deve ter sido alguém parecido comigo. Como eu dizia, eu precisava colocar um fim naquela relação. Ainda mais com um flagrante de adultério. Assim, mandei o aspirador para o concerto. Liguei para a garantia e disse que ia mandá-lo para a fábrica. E lá foi ele... com a Margô dentro! Ela e o aspirador, viajando juntos... Lua de mel! Não era o que ela queria? Como eu tive coragem? Oras, ela tinha tentado me engolir! Não, eu não sou rancoroso, só acho que a vingança é um prato que se come frio! Estou errado? Está bem, eu confesso! Adorei ouvir seu chocalho desesperado, aquele som abafado e fora do ritmo! Até gargalhei ao ver a caixa sendo levada pelo correio! Pensando bem, eu não devia ter posto o remetente...

Entendeu agora porque decidi que animais de estimação não são boa companhia? Pois é, foi por isso então que pensei em fazer análise. Algo sério... freudiano! Fiquei empolgado com a idéia de ter alguém realmente interessado em saber, por exemplo, que só dei meu primeiro beijo de língua aos vinte e seis anos! E mesmo assim numa simulação que fiz num mamão papaia. Ou então que me ajude a entender por que as mulheres sempre caem na gargalhada quando eu tiro a roupa! Confesso que fiquei ansioso com a perspectiva de abrir meu coração para um ser humano de verdade. Ou quase isso... um psicólogo! Eu estava mesmo animado e até cheguei a me "submeter" a algumas sessões. Três ou quatro eu acho, mas desisti quando, ainda no divã, olhei pra trás e o flagrei bocejando. Não um bocejo qualquer, pude ver seu dente do siso! E dizer que ele disse que queria me conhecer por dentro, mas fui eu que enxerguei sua amígdala!!! Aquela boca aberta me fez lembrar a Margô! Dá pra acreditar? Meu psicólogo bocejando como se o assunto o aborrecesse! E olha que eu estava contando sobre minha vida sexual! Isso mesmo! Estava expondo coisas que nunca havia antes revelado a ninguém, como a vez que minha mulher sugeriu que eu me fantasiasse de marinheiro para apimentar nossa relação. Aluguei uma fantasia do Pato Donald! Acredita que ela não curtiu?! Disse que não era sexy! Pô, como não?!

Já notou como ele não usa calças? Então... Pois é, se não tive sucesso no dia, depois, contando a história para o meu psicólogo, menos ainda. Portanto, me senti duplamente humilhado! Melhor assim, bem feito pra ele! Jamais saberá como terminou essa história! Agora que decidi não voltar mais lá, aposto que deve estar se martirizando naquela sua poltrona de couro, morto de curiosidade quanto aos detalhes picantes que não tive oportunidade de revelar. Acho que no fundo eles, os psicólogos, são todos uns pervertidos, dissimulados... Fingem desinteresse para que os pacientes, incomodados, se sintam impelidos a contar detalhes ainda mais e mais apimentados, sempre à espera de um suspiro de admiração. E depois, fala sério, que pessoa normal escolheria essa profissão podendo ser ginecologista, por exemplo? Acho que eles só pensam em sacanagem! Mas, só pensam... não fazem! São uns frustrados... Os psicólogos. Os ginecologistas não, esses são felizes!

Bom, aqui estou eu! Com você, meu diário, eu sei que poderei ser sincero sem que eu seja aquilatado. Até porque, eu também não quero te julgar! Eu por acaso questionei se suas folhas são recicladas? Se sua tinta é tóxica? Se você foi produzido numa fábrica na China por trabalhadores escravos? Ein? Ein? Se liga, todos nós temos um passado meu amigo!

Ok, por onde eu começo? O que quer saber? O que devo registrar em suas páginas provocadoramente brancas? Não, tudo menos falar da minha infância! Eu não tenho nenhum problema com a minha infância, aliás, nem lembro muito bem dela, nem sei por que caio no choro quando surge esse assunto...


Jean Marcel- Escritor, professor universitário, palestrante. É pai de dois adolescentes. Um leitor voraz. Eclético, escreve contos, crônicas, romances e infanto-juvenil. Possui o blog brisaliteraria.com

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