Ensaio sobre pássaros [ Erika Jane Ribeiro (Pók Ribeiro)]

Ensaio sobre pássaros

Os pássaros estão para o infinito, como os olhos para o azul. Há grandeza de pássaro em tudo aquilo que é impróprio para rótulos, regras ou frascos.
Há dias, um pássaro de vidro tem visitado aquela tal árvore de origamis. Embrenha-se nas cores, faz canto nas formas; nas suas asas, uma infinidade de abraços se aquecem e se doam. E a árvore sorri com todas as cores e dobras que lhe constroem, fazendo do espinho que teima em futucar a pele, portal pro real.
Além de libertos, os pássaros são (des) fazedores  de mistérios: ora cantam para nascer o dia, ora assoviam para chamar o escuro. Se queres ser pássaro, haverá de saber de ventos que despertam a manhã e/ou ninam estrelas. Haverá de ser repleto de inconstâncias, tal qual a brisa que lhe passareia.
O que carregam no bico, além do canto, doce alento? Ah, trazem as sementes, que derrubadas em terra acre, farão brotar pés de vagalumes, galhos de mansidão noturna e uma porção de olhinhos miúdos que sorriem na luz da manhã. Bico de passarinho planta amor nos mais áridos cantos; e brota! Bico de passarinho é baú de poesia onírica.
Quem tem disposição para pássaro, desde cedo, deve saber que quanto mais alto e longe for o voo, mais carregado de azul será. Carece saber, também, que as árvores e suas copas mansas trocam as folhas, arrancam galhos e mudam. Cedo ou tarde, também o passarinho deverá deslocar seu ninho.
Todo aquele que se propõe a passarinhar deve ter inclinação para miudezas, tão amplas que rasgam, e das cicatrizes  ver nascer as asas. De igual modo, aquele que se descobre pássaro deve ter habilidade para amplidões; o vago-repleto do azul celeste. Não há de passarinhar quem não é oximoro constante.
E assim, o ser que pássaro se revela deve permitir-se sofrer de ventanias, de cantarolar liberto; deve abster-se de gaiolas, jejuar de relógios e donatários. Ser pássaro é des-ser de si e de todo outro ou ser com ele: todo.


Erika Jane Ribeiro (Pók Ribeiro). Poeta, cronista, professora de Língua Portuguesa com Especialização em Literatura e Cultura, oficineira, articuladora textual com adolescentes e blogueira. Natural da cidade de Uauá – Bahia, terra iluminada pelos vagalumes e com forte veia cultural, foi acolhida pelo Rio São Francisco desde os idos de 2000 quando iniciou o curso de Licenciatura em Letras pela UPE/FFPP em Petrolina - PE. Já em 2010, concluiu o curso de Direito pela UNEB em Juazeiro – BA e, em 2012, especializou-se em Direito Penal e Processo Penal. Amante da literatura desde sempre, começou a escrever poemas por volta dos 12 anos. Em 2007 lançou, numa produção independente, o livro de poemas “Noites e Vagalumes”. Atualmente, além de poemas, escreve crônicas, memórias literárias e arrisca-se em composições musicais, em parceria com amigos músicos. Página na internet: Vagalumes, poesia e vida

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