O luto do escritor [Cláudia de Villar]

O luto do escritor


E a saga continua! Após o sofrimento de escrever e ler-se, o escritor (alguns exemplares da raça) passa por um processo de luto. Ao entregar o seu original à editora e passar pela experiência de ter a sua obra e sua vida reviradas por um “estranho” (aqui representado pelo editor) o autor se vê num estado de perda. Deixa para trás mais do que um conjunto de pensamentos, mas um conjunto de si mesmo. E esse conjunto morre. Dessa forma, ele fica viúvo. Viúvo de si mesmo. Há um vácuo entre o último ponto final e a próxima obra. O que escrever agora? O que interessará ao leitor? E o que interessará a ele mesmo?

O “branco” que surge não cobre o preto do luto. Mais do que a angústia do que ele poderá escrever,alguns escritores vivem, nesse momento, a plenitude de uma viuvez imposta pela vida literária. Aflora um sentimento de que a sua última obra foi a sua maior e (última) manifestação de criatividade esplendorosa. Nada mais surgirá após o último livro. Está acabado. Enterrado. Morto e sepultado. E não há indícios de uma possível ressuscitação! A obra (aquela já entregue à editora) não renascerá. Foi deixada lá na editora para sempre. Sempre. Será que algum dia em sua vida o escritor conseguirá, novamente, escrever algo novo? Será que conseguirá “engravidar-se” de palavras e expressões novas? Eis a viuvez melancólica. Talvez aquela obra tenha sido a última. A sua última manifestação de vida. Agora, autor e obra estão condenados ao luto. Um luto de pai, mãe e filho. Ficou viúvo e órfão. Vive o pior momento de sua dor. Enquanto espera o livro sair da gráfica e ir para as livrarias o escritor se esconde de si mesmo. Não vê mais saída. Como dar continuidade à sua vida literária agora, após a morte de sua última manifestação criativa? Como olhar o sol e a lua e não remeter-se ao último livro. Somente nele, no último livro, as palavras saíram com uma exatidão profunda. Somente ele, o último livro, continha as emoções certas e agora, sem ele, como viver e sobreviver? É um luto de pele, de sentimentos e de letras. Está tudo acabado. Morreram as ideias, as letras, os parágrafos mais belos, as rimas mais perfeitas, as personagens mais ilustres, juntamente com a sua vida de escritor compartilhado. Será excluído e bloqueado das redes sociais. Afinal, quem irá querer manter contato com um escritor não mais publicado?

E, em seu momento mais enlouquecedor de sua dor, eis que o livro fica pronto e sai da gráfica e segue o seu caminho literário: a sessão de autógrafos é o renascimento de uma vida literária. Será uma sessão e exorcismo. Sessão de terror ou, enfim, o escritor viverá o milagre da ressurreição?

Esse texto foi originalmente publicado no site: http://www.artistasgauchos.com.br/


Cláudia de Villar é professora, escritora e colunista. Formada em Letras pela FAPA/RS, especialista em Pedagogia Gestora e em Supervisão Escolar pelo IERGS/RS, também atua como colunista de site literário Homo Literatus e Jornal de Viamão do RS, além de ser pós-graduanda em Docência do Ensino Superior (IERGS/RS). Escreve para diversos públicos. Desde infantil até o público adulto. Passeia pela poesia e narrativas. Afinal, escrever faz parte de seu DNA. 

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