AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (43ª POSTAGEM) [Rubens Jardim]

AS MULHERES POETAS NA LITERATURA BRASILEIRA (43ª POSTAGEM)

LILA RIPOLL (1905-1967) poeta gaúcha, foi pianista, professora e presença de destaque na literatura sul-riograndense. Miltante política, participou da frente intectual do Partido Comunista, em 1935. Conquistou prêmios importantes : Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, pelo livro de poemas Céu vazio(1941), e o Pablo Neruda, por Novos Poemas(1951). Publicou quase dez livros de poemas--e depois do golpe de 64, foi presa.

VIM AO MUNDO EM AGOSTO 

Sou triste de nascença e sem remédio.
Vim ao mundo no triste mês de agosto
o mês fatal das chuvas e do tédio,
e nasci quando o sol estava posto.
Vim ao mundo chorando... (o meu presságio!)
Um vento mau marcava na vidraça
o plangente compasso de um adágio,
anunciando agoirento uma desgraça.
Sou triste. É irremediável este mal.
E eu não quero curar minha tristeza.
Só ela para mim tem sido leal,
Na minha via-sacra de incerteza.
Sou triste de nascença. É mal sem cura.
A vida não desfez meu nascimento.
Sou a menina triste e sem ventura,
que em agosto nasceu, com chuva e vento.
 

POEMA VI

Hoje pensar me dói como ferida.
O próprio poema não é poema.
Tem qualquer coisa de trágico.
De pétalas descidas.
De véu cobrindo o retrato
de um morto.
Hoje pensar me dói como ferida.
Mas é uma imposição - pensar.
Não quero estado de graça,
nem aceito determinismo.
Só a morte é irreversível.
A opressão do azul
aumenta meu conflito,
e é cruel escutar as razões
da razão.
Quisera repartir-me
no cristal da manhã.
Ser um pouco daquela rosa
tocada de irrealidade;
da tênue luz ferindo
o espelho do rio;
daquela estátua pudica
que parece ter ressuscitado
a inocência.
Mas em vez disso,
aqui estou:
queimada em pensamentos,
quebrados os instrumentos
do sonho. 

GRITO (1961) 

Não, não irei sem grito.
Minha voz nesse dia subirá.
E eu me erguerei também.
Solitária. Definida.
As portas adormecidas abrirão
passagem para o mundo
Meus sonhos, meus fantasmas,
meus exércitos derrotados,
sacudirão o silêncio de convenção
e as máscaras de piedade compungida.
Dispensarei as rosas, as violetas,
os absurdos véus sobre meu rosto.
Serei eu mesma. Estarei
inteira sobre a mesa.
As mãos vazias e crispadas,
os olhos acordados,
a boca vincada de amargor.
Não. Não irei sem grito.
Abram as portas adormecidas,
levantem as cortinas,
abaixem as vozes
e as máscaras —
que eu vou sair inteira.
Eu mesma. Solitária.
Definida. 

RETRATO 

Chego junto do espelho. Olho meu rosto.
Retrato de uma moça sem beleza.
Dois grandes olhos tristes como agosto,
olhando para tudo com tristeza!
Pequeno rosto oval. Lábios fechados
para não revelar o meu segredo...
Os cabelos mostrando, sem cuidados,
Uns fios brancos que chegaram cedo.
A longa testa aberta, pensativa.
No meio um traço, leve, vertical,
indicando uma idéia muito viva
e os sérios pensamentos: — o meu mal!...
O corpo bem magrinho e pequenino.
— Sete palmos de altura, com certeza. —
Tamanho de qualquer guri menino
que a idade, a gente fica na incerteza!
E nada mais. A alma? Ninguém vê.
O coração? Coitado! está bem doente.
Não ama. Não odeia. Já não crê...
E a tudo vive alheio, indiferente!...
Meu retrato. Eis aí: Bem igualzinho.
O espelho é meu amigo. Nunca mente.
No meu quarto, ele é o móvel mais velhinho.
E sabe desde quando estou descrente!... 



MARIA DA PAZ RIBEIRO DANTAS(1940-2011) poeta paraibana, viveu no Recife desde 1963. Foi mestre em teoria da literatura pela Universidade Federal de Pernambuco. É autora dos livros de poemas: Sol de Fresta, (1979), menção honrosa especial no Prêmio Fernando Chinaglia, da UBE do Rio e  Ilusão em pedra, (1981). Participou de várias antologias de poesia. Editava e mantinha o site www.joaquimcardozo.com

LITURGIA 

Com tuas longas vestes verdes
te inclinas
sobre o sangue das uvas.
O céu e a terra tremem
e o vinho reflete
o abismo de Deus.
Com tuas longas vestes verdes
artesão da manhã
solenemente ergues
o Sol. 

O CAPIBARIBE NO RECIFE 

Nada mais doméstico
do que esse boi manso
pastando a si mesmo sob
a canga das pontes. 

EDIFÍCIO DA SUDENE

Na beira mar
da seca
o monumento
às ondas. 

EQUILÍBRIO FLUENTE
                              A ilya Prigogine 

Escalando a serra nevada
ou o monte roraima
em minhas retinas
estou hoje a um certo dia de maio
                            no topo 2000
da montanha do século.
Um não-sei-quê
                    me amanhece
para o teu abraço
                    e descubro que
não mais me tentam
vícios de estrutura.
Um corpo leve (o meu)
me atrai me leva
no rumo de um equilíbrio fluente.
Viajar me importa.
                                    Quero
meu desejo além
                      da gravidade
Reconhecer-te
no abismo das quedas
que não chegam ao fundo.
                                   E no
enquanto de abraço
ou ar que nos enlaça
eu te sonho tu me sonhas
de modo tão descontínuo
                                  e livre
que nos sorrimos compreendidos
                            sem medo
de colisão no escuro
ou na sala
                                       civil
dos sistemas
fechados. 



HILMA RANAURO(1945) poeta carioca e doutora em letras, é também ensaísta, professora da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Filologia. Participou de diversas antologias, (Antologia da Nova Poesia Brasileira,1982, e A Poesia Fluminense no Século XX ,1998).Obra poética: Descompasso (1985) e Um Murro no Espelho Baço(1992).

E me cobraste
o fogo-fátuo
feito milagre.
Mas eu era Eva
no pecado mortal
do medo. 

DESCOMPASSO 

Me querem mãe
e me querem fêmea,
me querem líder
e me fazem submissa,
me fazem omissa
e me cobram participação,
me impedem de ir
e me cobram a busca,
me prendem nas prendas do lar
e me cobram conscientização,
me tolhem os movimentos
e me querem ágil,
me castram os desejos
e me querem em cio,
me inibem o canto
e me querem música,
me apertam o cinto
e me cobram liberalidade.

Me impõem modelos
gestos
atitudes
e comportamentos.

E me querem única.

Me castram
podam
falam
e decidem
por mim.

E me querem plena.... 

DECISÃO 

Faço versos como quem empunha uma arma
mas também como quem brinca e ri
e goza
e ama.

Meus versos são dardos com que a fêmea, ferina,
se livra de condicionamentos impostos;
são denúncia de mulher que se bate
pela causa suprema de ser e lutar.
São meus versos espada que empunho
no ataque e na luta por tudo em que creio;
são orgasmo e gemido do sexo que, livre,
se molha e se mela no desejo e na entrega.
São meus passos que oscilam no ir ou não ir,
são o choro do riso na mudez do meu grito,
são verso e reverso, o avesso do pano de fundo
de mim, e o sim do não que é medo.
São enchente e vazante, timidez e desplante,
faxina geral e poeira sob o tapete.
O lirismo do afago, a ternura do aceno,
o furor da revolta, o fremir do desejo,
são meus versos - veias pulsando
na zanga da briga e no canto da paz,
disjuntores que ligam e desligam
nos curto-circuitos de mim. 

CENA ABERTA 

Coloque-se na palma da mão,
espalme-se,
entorne-se,
esparrame-se.

Chafarize-se de pingos seus,
chova um pouco de você.

Lance em olhar ao redor,
ponha-se pronto,
pendure-se,
despenque-se.

Veja-se desvendado,
devassado e público.

Pronto,
dane-se o mundo.

Ponha-se na boca da cena,
cara limpa,
grito pleno.
Seja-se, sem máscaras. 



CERES MARYLISE REBOUÇAS DE SOUZA (1946) poeta baiana, é pedagoga e professora especializada em alfabetização. Doutora em linguística pela Universidade de Quebec, tem vasta experiência na cátedra universitária, tendo ocupado também importantes cargos na Universidade Estadual da Bahia Já participou de algumas antologias, mas ainda não teve livro de poemas publicado. Faz parte da Academia de Letras de Itabuna. Recentemente foi agraciada com o troféu Cecília Meireles.

Não sou mais
nem menos;
sou apenas corpo
que levanta vôo,
e às vezes cai 
sob o mesmo céu
que abriga a todos. 

À MULHER

Porque és mais
que a beleza,
muito mais
que um corpo.
Porque és mais
que um ventre
para o filho
e muito mais
que a ilusão
de um homem.
Porque tuas mãos
são alento, bênção
e sensatez.
Porque há paz
nas tuas palavras
quando rompes
com tua essência,
o estigma de fetiche.
Porque és nobre,
imensurável,
e amamentas
com a força
dos teus seios
e de tua luz,
a história
humana. 

CHEGO AOS SESSENTA ANOS (fragmento)

… O tempo nunca é generoso,
sempre marca na pele
e nas entranhas,
guardando o eco dos prantos,
dos risos transbordados,
e já não têm sabor
de derrota ou de vitória.
Minhas histórias,
estas nunca se apagarão,
porque estão gravadas
no coração: suas cores
nunca poderão ser mudadas.
O tempo não faz com que
as dores doam menos;
apenas nos acostumamos
a viver com elas.
Minha memória baila
desenhando lembranças,
mas chora quando as esculpe
naquele abraço forte
que sempre me fez falta.
Ando entre o mergulho e o vôo,
entre a incerteza
e o medo da certeza.
A esta altura da vida
desejo muito pouco:
só quero um templo
de colunas largas
para amar a todos
e poder abraçá-los
em todas as geografias,
em todas as raças,
em todos os idiomas. 

REENCONTRO

Não mandem calar minha saudade agora,
busquei o mundo, passei tanto tempo fora...
Ponham copos nesta mesa abandonada,
onde jogamos cartas e destinos.

Não abram as janelas já tão carcomidas
pelo tempo passado - pó da vida,
desta casa que gentil nos abrigou
em algazarras inocentes de meninos.

As gavetas devem estar abarrotadas
de tanta coisa inútil e empoeirada:
poemas murchos, flores ressecadas,
entristecidos, à espera de algum gesto.

Não acendam a luz, meus pés conhecem
o vício dos degraus, os corredores,
as portas que abrem sempre suas asas
aos quartos amplos e acolhedores.

Ouço risos de crianças pela sala,
sempre correndo em busca de emoção
ou sentadas nos colchões já desbotados,
deslizando num já gasto corrimão.

Nas paredes há sombras que estremecem
com o bater dos corações - velhos rumores,
que um dia preencheram minha infância
e nunca me mostraram dissabores.

Quero sentar-me no colo da mamãe,
adormecer com histórias do papai
e despertar ao som dos passarinhos,
que cantavam saltitantes nos beirais.

Agora parto, saciada de fantasmas:
são eles que abrem a porta do jardim
e ternamente beijam minhas faces.
Já vou. Já vou. Só vim saber de mim.


Rubens Jardim, 67 anos, jornalista e poeta. Foi redator chefe Gazeta da Lapa e trabalhou no Diário Popular, Editora Abril e Gazeta Mercantil. Participou de várias antologias e é autor de três livros de poemas: ULTIMATUM (1966), ESPELHO RISCADO (1978)e CANTARES DA PAIXÃO (2008). Promoveu e organizou o ANO JORGE DE LIMA em 1973, em comemoração aos 80 anos do nascimento do poeta, evento que contou com o apoio de Carlos Drummond de Andrade, Menotti del Picchia, Cassiano Ricardo, Raduan Nassar e outras figuras importantes da literatura do Brasil. Organizou e publicou JORGE, 8O ANOS - uma espécie de iniciação à parte menos conhecida e divulgada da obra do poeta alagoano. Integrou o movimento CATEQUESE POÉTICA, iniciado por Lindolf Bell em 1964, cujo lema era: o lugar do poeta é onde possa inquietar. O lugar do poema são todos os lugares... Participou da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (2008) com poemas visuais no Museu Nacional e na Biblioteca Nacional. Fez também leituras no café Balaio, Rayuela Bistrô e Barca Brasília. E participou da Mini Feira do Livro, com o lançamento de Carta ao Homem do Sertão, livro-homenagem ao centenário de Guimarães Rosa. Teve poemas publicados na plaquete Fora da Estante, (2012), coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo. Páginas na Internet: Site: Rubens Jardim e Facebook: Rubens Jardim

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