Caio, Clarice e os robôs do Facebook [DANILO VENTICINQUE]

Caio, Clarice e os robôs do Facebook

Um aplicativo cria novas frases a partir de posts antigos de qualquer um – incluindo os escritores mais populares da internet 


Artigo publicado na Revista Época 

Se a principal função da mente humana hoje em dia é atualizar perfis no Facebook, logo seremos substituídos pelas máquinas. E o pior: estamos gostando disso. A diversão do momento é o aplicativo What Would I Say?, que reúne todos os posts e comentários já feitos por um usuário e usa esse material como base para produzir novas frases com o mesmo tom. Basta entrar no site what-would-i-say.com e, depois de alguns cliques, você terá criado um robô com a sua personalidade, capaz de gerar centenas de posts em poucos minutos.

Eu desconfiava da capacidade do aplicativo, mas um colega de redação me incentivou a experimentá-lo. Como um orgulhoso representante da geração #selfie, decidi testar a novidade no meu próprio perfil. Entreguei todo o meu histórico digital para a máquina. Em troca, ela me brindou com algumas frases longas e desconexas, como “A campeã moral do American Idol para ler mais rápido” e “A coluna de hoje é sobre a coluna de hoje”. Pensei em desistir da brincadeira, mas reconsiderei. Talvez a máquina estivesse reproduzindo a minha personalidade e eu, de fato, não fizesse sentido na maior parte do tempo. Em nome da justiça, persisti.

Poucos cliques depois, o robô me surpreendeu com algumas provocações. “Por que entrar numa rede social?”, perguntou ele, numa das frases. A crítica ao narcisismo continuou em seguida. “Eu na balada, a foto bonita, só vou me mostrar nesse aplicativo”, disse ele. Reparei que muitos amigos seriam capazes de emitir essa frase. A máquina concorda. “Muitos amigos têm pouca utilidade na vida”, disse. Foi quando notei que meu colega estava certo. O aplicativo havia conseguido captar minha personalidade.

Logo comecei a compartilhar no Facebook os posts da minha contraparte robótica. As reações foram perturbadoras. Minha mulher chamou o robô de arrogante. Encarei como um insulto, já que sua personalidade era obviamente a minha. Uma amiga disse que ele era tão pessimista quanto eu. Lamentei pela máquina, mas concordei. À exceção desses dois comentários, só houve elogios. Dezenas de amigos interagiram com o robô, curtiram seus posts e riram de suas piadas. Foi quando percebi que ele era mais popular do que eu.

Passei a admirá-lo. Ele diz frases geniais que eu jamais diria, como “Bora comprar todas essas coisas que os senhores mencionaram”, ironizando o consumismo de meus amigos, e “Neste sábado farei uma passeata em defesa da minha vida, acho!” – uma crítica sutil ao instinto de sobrevivência do ser humano e a sua vontade de se rebelar. Isso sem falar em pílulas quase poéticas de pessimismo, como “Seis meses de dedicação à falência” e “Fracassou em Freud e vivem de pão”. Tive de me render. O robô havia me superado. Se ele estivesse escrevendo este texto, certamente o faria melhor do que eu.

Humilhado pela tecnologia, comecei a pensar nas implicações literárias do aplicativo. Se ele conseguira produzir frases brilhantes com base nos meus posts no Facebook, reconhecidamente uma matéria-prima de péssima qualidade, o que ele poderia fazer com textos de grandes autores da literatura nacional? Num experimento que deixaria o Doutor Frankenstein orgulhoso, alimentei o aplicativo com o conteúdo de perfis que publicam frases de Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector, os escritores brasileiros mais populares nas redes sociais.

As primeiras frases da versão cibernética de Caio Fernando Abreu foram uma decepção: monólogos longos e incompreensíveis. Ciente dos talentos ocultos do aplicativo, contive meu julgamento inicial. Talvez os textos desconexos fossem uma crítica muito sutil da máquina aos leitores do mundo digital e à sua dificuldade para decifrar textos profundos. Talvez os posts não fossem desconexos e eu, com a falta de foco típica da minha geração, fosse incapaz de decifrá-los. Dei uma segunda chance ao Caio Fernando robô e fui recompensado. Logo ele produziu frases que não fariam feio em nenhum perfil no Facebook. “O amanhã é uma voz lá no fundo, esmagado pela superficialidade.” “Bem que podia ser agora, um amor novinho em si mesmo.” E a minha favorita: “Nós vamos conversar, sair bem, mas a morte é inevitável, portanto normal.” Clarice Lispector, reprocessada pelo aplicativo, também se saiu bem, com frases como “O que falo nunca é o que se pensava que era amor. E não é a solidão”, e “Ouve o meu silêncio. O que era amor.”

Os céticos dirão que tudo não passa de uma grande palhaçada, e que essas frases são apenas pedaços recortados e colados de textos antigos. Os posts desconexos com que deparamos muitas vezes ao usar o aplicativo seriam a prova de que ele não tem nenhuma inteligência, para não falar em bom gosto. Apesar de representar a espécie humana, devo defender as máquinas. O aplicativo está apenas em sua primeira versão. Pode melhorar muito assim que aprender um pouco de gramática e entender a diferença entre frases possíveis e impossíveis. Também poderia analisar as reações a suas postagens no Facebook, compreender o que nos agrada e tentar nos oferecer mais disso. Logo serão indistinguíveis dos originais.

Mesmo agora, em seu estado evidentemente precário, o aplicativo consegue produzir frases muito mais convincentes do que os milhares de textos apócrifos que usuários do Facebook atribuem a Caio Fernando Abreu ou Clarice Lispector. Assim como Luís Fernando Veríssimo ou Arnaldo Jabor, a dupla de autores assina na internet inúmeros posts que jamais escreveram, por pura má fé dos humanos. Ao menos as máquinas admitem que são máquinas. Também têm um pouco de senso de estilo. São muito melhores do que nós. Em pouco tempo vão adquirir a capacidade de escrever textos maiores, ou até livros inteiros. Nós, com a distração típica dos nativos digitais, acharemos tudo genial, curtiremos e compartilharemos. Não era a literatura que esperávamos para o futuro. Será que é a literatura que merecemos? 

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2 comentários:

Cinthia Kriemler disse...

Excelente texto. Apavorante em conteúdo, mas ótimo. Resta torcer para que não seja esse o futuro da literatura. Merece mais que isso a nossa musa.

Cinthia Kriemler disse...

Excelente texto. Apavorante em conteúdo, mas ótimo. Resta torcer para que não seja esse o futuro da literatura. Merece mais que isso a nossa musa.