Conversando sobre Arte entrevistada Annarrê Smith. [Marcio De Oliveira Fonseca]

Conversando sobre Arte entrevistada Annarrê Smith.


Minha formação não foi artística, mas no campo da filosofia, onde me graduei e fiz curso de pós- graduação. A arte sempre esteve na minha vida, mas como algo de muito natural e prazeroso. Meu primeiro contacto com um professor foi com aulas de desenho, mas por pouco tempo, com Carlos Fajardo. Fiz muitos workshops com artistas conhecidos, tais como Rezende, Valtércio Caldas, Nelson Lerner, Whesley, Nuno Ramos. Acho que estes artistas citados foram importantes para que eu visse a arte como opção de vida. Tive contato com críticos que respeito muito e sempre procurei escutar as suas opiniões ou críticas, aprendendo. Com o tempo pude sentir que amadureci no contato com estas pessoas que sempre me ajudaram, sem esperar retorno. 

A filosofia teve enorme importância no meu trabalho, ligado ao pensamento fenomenológico, onde as percepções do real sempre apareciam ligadas a um contexto mais amplo, conceitual.

Nunca considerei a arte uma profissão, mas uma vocação irresistível. Viver de arte não é fácil aqui no Brasil, exige dedicação total, muitas vezes sem o retorno financeiro desejável, como nos outros campos, mas a arte e´, para mim, de tal modo vital que é impossível de viver sem ela. Está em qualquer olhar que lancemos sobre o mundo, embelezando, provocando. 

A participação em salões, de certo modo, não existiu na minha vida. Preocupei-me mais em realizar um trabalho coerente, fazer um bom portfolio com um o´timo fotógrafo (Romulo Fialdini) e quando me senti segura, apresentá-lo numa galeria. Estudei a galeria que me pareceu mais adequada e foi a Raquel Arnaud, a quem respeito muito por sua capacidade. Lembro-me ate´hoje como algumas colegas ridicularizaram minha pretensão, já que era totalmente desconhecida, sem faculdade de arte, etc.

Raquel deu-me um bom "chá de cadeira", mas não desisti. Acabou recebendo-me e convidou, depois de examinar o portfolio, para expor em sua galeria. Acho que foi um dos dias mais felizes que tive, pois foi uma honra para uma desconhecida. 

Este foi o meu começo e depois uma individual no MAM de São Paulo. Quem escreveu o texto de apresentação foi Agnaldo Farias, a quem admiro, que depois seguiu acompanhando o meu trabalho. Fiz diversas exposições em museus, salões internacionais, feiras de arte, etc.

Como se vê, não foi um "começo padrão", se é que existe isso. Aconselho ao iniciante persistência e força de vontade. 

E, quando tiverem sucesso, não se esqueçam de trabalhar sempre mais e mais. Seram sempre autênticos, não seguirem modismos, mas apenas colocarem-se , de fato, na sua obra. Ela deve ter a sua "cara", a sua marca...

Quanto ao meu trabalho, gosto sempre de trabalhar dentro de uma certa "ordem", que pode, ou não, ser geométrica para desfazê-la, introduzindo o "caos". Agrada-me as oposições, os contrastes, as percepções não visuais somente , mas cinestésicas. Não existe um "padrão" específico, dependo da inspiração. Ou melhor, do desafio. A ironia tambe´m apareceu numa série de objetos que chamei de "irônicos". 

Quanto aos materiais, já trabalhei com aço, madeira, ferro, chumbo, borracha, etc, e mesmo criei uma espécie de "pele", depois de pesquisar em fábricas e misturar diferentes matérias industriais. Fabriquei também muitas da minhas tintas com óxidos, terras, pigmentos naturais, etc. Gosto de inovar.

Quanto aos salões de arte, acho que deveriam ser divididos em três tempos. No primeiro, analizariam os portfolios e fariam uma seleção. No segundo, propiciariam aos escolhidos acesso a um atelier, materiais, etc, gratuitos. Depois que realizassem os seus trabalhos, num prazo mínimo de um mês, fariam a exposição, e enfrentariam um juri. Acho que isto facilitaria o acesso de artistas desconhecidos ao mercado da arte. 

Não acredito que exista uma diferença entre uma mulher e um homem no mercado de arte, a arte está numa categoria universal, independendo de sexo, pátria, ou etc. 

Nunca consegui ter planos para o futuro, vivo ao sabor do momento. Este é meu grande defeito. Atualmente realizo projetos sobre encomenda, depois de ter trabalhado com as galerias da Raquel Marilia Razuk e Valu´Oria, aqui em São Paulo, e escrevo um livro, meu primeiro livro.
Annarrê. 

Minha proposta

Nas peças em aço ou ferro, geralmente parto de uma forma geométrica determinada que é exaustivamente repetida, quer no seu núcleo geométrico inicial, quer em seu prolongamento arbitrário. A forma geométrica encontrada é mero pretexto para o pensamento se articular enquanto veículo da imaginação.
Nas instalações, repito incansavelmente a mesma forma (muitas vezes uma espécie de cavalete de aço) para desafiar o olhar a montar novas articulações.

Estas peças costumam pedir uma apropriação pelo outro, que é chamado a "remontá-la" tal qual num jogo ou quebra-cabeça, procurando novos equilíbrios ou desafios. Outras são oferecidas em caixas pequenas em que o "jogador" desafia o outro com a invenção. 

Agrada-me deixar evidente o aspecto construtivo destas peças, com seus arames que marcam os pontos de solda. São trabalhos em que as noções de caos e ordem estão intrinsecamente unidas.

Já nas peças em madeira, preocupo-me em criar o Vazio que será a origem da própria forma, como em obras em que a mesma forma se apresenta em aspectos diversos ou em outras onde a forma do vazio contém a do cheio e vice-versa. A questão da ambiguidade da forma é muitas vezes colocada em cheque quer por um desequilíbrio proposital, quer pela própria textura do material que a compõe. 

As peças “Tributos” e “Irônicas” fazem parte de uma série em que a ironia se mescla com a homenagem. Caos x Ordem, Contingente x Conteúdo, Vazio x Cheio etc., são oposições que me agrada confrontar.

Na série de fotografias, algumas fotos são trabalhadas em computador e depois "coladas" sobre a estrutura do quadro geométrico criado por desenho ou pintura, que as repete. Em outras, crio cenas de rua, dia-a-dia, momentos inexistentes. Observo o observador. Ruas, cidades, multidões são unidas entre si de uma forma casual num processo repetitivo, como se fossem meros dados abstraídos de sua significação real.


Oscilômetro (Tributo a Leonardo da Vinci) Cedro 70x85 cm.


J.B.  Madeira, pigmentos e óxidos.  45x90x35 cm.


Visão I. Madeira com têmpera. 70x140 cm. Osaka City Hall

 Como Urnas, Como Úteros II. Cedro. 2 peças. 72x73x30 cm. cada

M.R. Madeira e Grafite. Diâmetro 90 cm. Acervo do Museu Nacional de Belas Arte


 J.R. Aço e Madeira. 180x55x15 cm.

Meu Coração Se Move Pela Tua Mão. Cobre e fio de nylon. Diâmetro: 180x89 cm. 


 V.6. Chumbo e madeira. 87x30x25 cm.

 
Fruto Permitido (Tributo a Eva) Prata, tecido e fruta.
 O Relógio (Tributo a Dali) Borracha e bronze. Diâmetro: 30 cm.
 Cristo. Aquário com espinha de peixe e pigmento fluorescente. 12x24x17 cm.
 Visão 0.0. Aço oxidado. Diâmetro: 120 cm.
Rotação. Aço oxidado e pedra. Diâmetro 90 cm.
 Visão 0.3. Aço oxidado 200x250x200 cm. Acervo Centro Cultural São Paulo.
Monges. Diâmetro: 120 cm.
 
Observando o Observador (Londres) 120x120 cm. 
 Maçã-Verde. 80x160 cm.

A Última Ceia. 170x90 cm.

www.annarre.com 

"Escultura Quase. Que esculturas são estas que quase não possuem matéria? Empreendo um lento passeio a redor destes corpos vácuos e meu olhar, não tendo uma base sólida que o estanque, já o atravessa perdendo-se em seus complicados avessos ou aflorando do outro lado.

Serão apenas projetos, mapas,/ esquemas, qualquer coisa ainda no estágio de ideação? Satélites submissos no intelecto que os concebeu, a espera de matéria que lhes preencha os vazios, que lhes garanta um corpo com o qual possam obter seus espaços junto as coisas que compõem o mundo. Possuem parcos recursos, é fato, massa mínima, mas, entretanto, de suas ossaturas precisamente calculadas já se esplende como um prenúncio, a ambição do que projetam ser. De fato a contemplação imediata dessas peças - chamemo-las assim por enquanto - sugere-nos imediatamente diagramas tridimensionais de planetas, projeções cartográficas de territórios, algo de grandioso aguardando conquista e deciframento. 

E essas outras, duplas, que sugerem ter sido explodidas, restando-lhes ainda a evidencia de que um dia já foram acasaladas, que constituíram um corpo único. Que sorte de acontecimento as terá assim separado? Cisalhamento ou bomba? 

O recurso ao paradoxo, ao ambíguo, tem sido o eixo em torno do qual se organiza a estética de Annarrê. Seus trabalhos trazem sempre dentro de si a cápsula de sua destruição; com que sedem espaço repentinamente à ação de armadilha que lhes era estranha, um enfeitiçamento até então adormecido e que, liberado pela própria progressão, desafia e fende o cristal de sua lógica. As esculturas de Annarrê que não são esculturas, são quase. Esse impasse, essa desconfortável posição à margem do conceito, resulta do modo como ela o problematiza. De saída estabeleça-se que a artista parte da contestação do caráter excessivamente material da escultura clássica, da sua presença ostensiva, retirada pelo pedestal onde invariavelmente ela se situa, para aludir a um fato ou a uma personagem histórica. 

Consciente, portante do campo problemático em que se situa a produção escultórica contemporânea, a cada um de seus trabalhos é um corpo expandido, um ser para se oferecer pleno às mais variadas operações perceptivas e do pensamento. 

Os trabalhos de Annarrê são uma resposta ao que ela percebe do mundo, e o que ela percebe é crivado simultaneamente pela certeza de que se os nossos sentidos são a um só tempo possibilidade de conhecimento, são também pela sua natureza mesma, seu limite. Do mesmo modo ela sabe que aquilo que o pensamento constrói a propósito das coisas, embora guarde relações, não se confunde com elas. Assim é que a geometria de suas peças sofre uma espécie de alucinação que a faz tangenciar o caos. É como se ela demonstrasse que o impulso ordenador do mundo, se levado às ultimas conseqüências, conduz ao seu contrário ao que é efêmero, imponderável, ao descontrole. 

Nas esculturas de Annarrê a harmonia queima e a transparência tem um tremor oculto. Não é que as formas não sejam simples. Seus contornos são claros, rapidamente apreensíveis. Convidam ao avizinhamento com coisas conhecidas que gostamos de rever. Mas, mal nos aproximamos, começamos a deslizar para uma sensação de desconforto. Os vergalhões de ferro que se intercruzam no espaço enfeixando o vazio, criadores da geometria escondida das formas, além de estarem enferrujadas, imerso no fluxo do tempo que transforma implacavelmente suas superfícies em pó, trazem em cada ponto de intersecção um arremate agressivo, uma linda armada torcida que nos alfineta os olhos e crispa nossos sentidos. Outras vezes o que à distância é placidez, perto se resolve numa lógica confusa e destrambelhada. Como se o fio de ferro, cansado da sua dureza, resolvesse revelar toda a sua desenfreada ductilidade.

Escultura-quase: no impasse do objeto o salto do pleno vir-a-ser do significado."
Agnaldo Farias - crítico e curador de arte - Bienal de São Paulo - Instituto Tomie Ohtake 

Exposições principais 

Individuais 

Galeria Valu Oria (São Paulo) – 2008 
· Gallery 32 (London) – 2002
· Marília Razuk Galeria de Arte (São Paulo) – 1998 e 1995
· Galeria Valu Oria (João Pessoa) – 1998
· Galerie Douyon (Miami) – 1997
· Museu Nacional de Belas Artes – Galeria Séc. XXI (Rio de Janeiro) – 1996
· Galeria André Milan (São Paulo) - 1995
· Centro Cultural São Paulo – artista convidada (São Paulo) – 1995 e 1992
· Museu de Arte Contemporânea / MAC (São Paulo) – 1994 (Encontros e Tendências, individual simultânea)
· Galeria Raquel Arnaud (São Paulo) - 1993
· Museu de Arte Moderna / MAM (São Paulo) – 1992 e outras 

Coletivas 

Galeria Valu Oria (São Paulo) - Panorama da Fotografia – 2009

· Arte BA (Buenos Aires) – 2008
· SP Arte (São Paulo) – 2008
· Galeria Valu Oria (São Paulo) – Expo Arte 2007 e 1997
· Museu de Arte Pampulha (Belo Horizonte) – 2006
· Museu del Hombre Dominicano (Santo Domingo, Republica Dominicana) – 2006
· Museu Nacional de Trinidad e Tobago, Port of Spain (Trinidad e Tobago) – 2006
· Marília Razuk Galeria de Arte (São Paulo) – 2005
· Essex Collection (Essex) – 2004
· Museu de Arte Contemporânea / MAC (São Paulo) – 2003, 1994 (Tendências Construtivas) e 1993 (Presença Contemporânea)
· Instituto Cultural Itaú (São Paulo) – 2002
· ARCO (Madrid) – 1998
· Museu de Arte de São Paulo / MASP (São Paulo) - 1997 (Troféu Galaxy)
· Espaço Banco do Brasil (Rio de Janeiro) - 1997 (Destaque do Acervo do MAC)
· Parque Laje (Rio de Janeiro) – 1997
· Arte no Hospital (Uberlândia, MG) – 1997
· Brasil Cultural Institute (Berlin) – 1996
· Galerie Barsikow (Berlin) – 1996
· Galerie Nord (Dresden) – 1996
· Paço das Artes (São Paulo) – 1996
· Osaka Trienale (Osaka, Japão) – 1995
· FUNARTE (Rio de Janeiro) – 1995
· Salão Nacional de Brasília (Brasília) – 1995 (Prêmio Funart de participação)
· Artistas da Galeria Raquel Arnaud (São Paulo) – 1994
· Museu de Arte Moderna / MAM (São Paulo) – 1992 (Panorama do MAM) e outras
· Osaka Trienale (Osaka, Japão) – 1992 

Obras em Acervo 

Prefeitura de Osaka (Japão

· Museu de Essex (EUA)
· Pinacoteca do Estado de São Paulo
· Centro Cultural São Paulo / CCSP
· Museu de Arte Moderna de São Paulo /. . MAM
· Museu de Arte Contemporânea de São . . Paulo / MAC
· Museu Nacional de Belas Artes (RJ)
· Palácio do Governo de São Paulo
· Assembleia Legislativa de São Paulo
· Prefeitura de Barueri
· Hospital de Uberlândia (Minas Gerais)
· Coleções particulares na Europa, EUA, . .Japão, Brasil,

 Marcio Fonseca, 1943. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Responsável pelos blogs art&arte marciofo,ocacadordeobjetos.blogspot.com e imagemsemanal juntamente com Brenda. Professor Adjunto Fac Med UFRJ e médico inativo; Estudou pintura e história da Arte com Katie van Sherpenberg e Arte contemporânea com Nelson Leirner http://arteseanp.blogspot.com.br/

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