Divagações sobre a raiva [Danilo Barbosa]

Divagações sobre a raiva

Se estiver esbanjando alegria, pode parar aqui mesmo, na primeira linha.  Hoje resolvi me abster de qualquer gesto bondoso. Não quero escrever, ler, conviver, quiçá sentir algo que faça com que eu saia de meu refúgio interior. Deixei minhas máscaras em casa, debaixo da cama. Se minha imaginação, desobediente, resolver trabalhar, que eu devaneie sobre o meu desejo diário de que a vida tenha menos cobranças e expectativas. Basta de correr, pare de esperar… E assim tenho dito!

Negarei a divagar sobre o tempo, dores e amores, tanto os meus quanto os dos outros. Hoje também me recuso a levar às costas pesos e responsabilidades que não são minhas. Cada um que lide com o seu.

Que bom seria se pudesse acordar e nem sequer pensar em sair da cama? Falar com quem eu gosto e ignorar aquelas pessoas que cismam em implicar? Simplesmente deletar de minha convivência estes seres. Quem sabe mandá-los para aqueles países longínquos, que mal conseguimos pronunciar o nome?

Falem a verdade: secretamente, quem nunca sonhou em um dia de rebelião? Jogar pela janela todos os papéis sem sentido. Falar para aquela pessoa estúpida todas as verdades acumuladas em sua  garganta. Permitir que os odiados sintam a sua fúria. Abraçar intensamente aqueles que ama, gritando aos quatro ventos o que sente, sem importar-se de ser julgado..

Comer o que quiser, fazer o que bem entender. Jogar aquela mulher insuportável que vive a reclamar dentro do ônibus pela janela. Quem sabe um pequeno empurrão naqueles estudantes que nunca sabemos onde arrumam tanta energia  de manhã… Será que com a Ana Maria Braga?! Melhor ainda, quebrar todos aqueles celulares imprestáveis que os seus donos decidem deixar tocar músicas nonsense em alto e bom tom na sua orelha.

Quero botar abaixo as convenções, regras, desejos não cumpridos. Quero mais… é ser feliz.

Mas para que isso aconteça não tenho que mandar embora toda a raiva que exaltei até agora? Pena, acho que não conseguirei cumprir a minha meta.

Sempre que não queremos fazer nada, acabamos por pensar em tudo.


Danilo Barbosa. Escritor independente, leitor inveterado e autêntico cheirador de livros. Redator no Grupo Editorial Novo Conceito, Copidesque e Editor do site Literatura de Cabeça. Publica na página: DB Autor.

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