Quebra-quebra [Cinthia Kriemler]


Quebra-quebra 

Quebrar. Do verbo despedaçar, destruir, fragmentar. Aurélio, Houaiss, obrigada. Quebrar. Do verbo se espatifar em erros, se estilhaçar em dores, se destroçar em consequências.

Quebrar as unhas. De tanto cravá-las na pele para convocar a vida que está lá, subcutânea. Quebrar o mito da boa menina. E também o da menina boa. Essas falácias de anjo e demônio, do bem e do mal, do yin e do yang que a gente consome no leite materno e se vicia nelas para o resto da vida. Falácia... Adoro essa palavra. Sempre quis usar em algum texto. Pronto, está aí. E nem me importo de ser chamada de velha pelos vigilantes-do-contemporâneo de plantão.

Quebrar a tradição de família que sussurra nos ouvidos das crianças que chorar só pode no banheiro e na fronha. E depois? Quando crescem e começam a engolir aquela água salgada toda, qual é o conselho, hein, tias, mães, avós? Tem gente de família com um mar de choro por dentro. Homens, mulheres. Cultivando tsunamis que se alternam com águas paradas. Paradas demais. Eles nunca aprenderam a explodir em pororocas.

Quebrar a perna. Que no teatro dá sorte, mas que na vida é só tropeço. E muletas. Drama! E ao fim de cada ato, limpo no pano de prato as mãos sujas do sangue das canções... Betânia para quebrar o gelo. Ou não quebrar. E usar os cubos no copo de whisky (escreve uísque você, que o meu é scotch). E tomar vários, intensos e desastrosos porres, deixando no congelador dois ou três cubinhos para a compressa de pano que vai aliviar mais tarde as têmporas latejantes da ressaca.

Quebrar o pau com o mundo inteiro, quando a vida estiver enchendo o saco. Sem o menor remorso. Porque quando a vida incomoda, a gente vira uma coisa meio Black Bloc, que quebra tudo e de cara tampada. É só não esperar que alguém entenda, que se solidarize. Porque ninguém leva em conta se antes de apanhar a gente era legal. Se antes a gente quebrava lanças e promessas pelos amigos, pelos filhos, pelos amores.

Quebrar o sigilo de coisas passadas, camufladas, mal contadas. E em troca de sexo apressado, de emprego vagabundo, de promoção pequena, de elogio barato, de popularidade de boteco quebrar a confiança de quem entregou para a gente os seus segredos mais caros. E entregou por afeto, por descuido, por bebedeira.

Quebrar o jejum. Abocanhar sem vergonha o prato cheio. Sexo com fios de ovos. Amor em nuvens de algodão doce. Paixão ao leite condensado. Chope com os amigos nos dias de verdade. Champanha com os amantes nos dias de brincadeira.

Quebrar a rotina. Quebrar, quebrar, quebrar. Tudo.


Cinthia Kriemler - Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.

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